Pesar

Serei breve. Aliás, todos nós.

Bate-bola, jogo rápido

— Alta do dólar.
— Protesto.
— Ascensão do pobre.
— Indigesto.
— No palanque.
— Modesto.
— No congresso.
— Desonesto.
— Ao pastor.
— Empresto.
— Aos fiéis.
— Só resto.
— Preto.
— Detesto.
— Mulher.
— Molesto.
— E se considera “homem de bem”?
— (…)

Neighborrude

trata-se de um ótimo bairro, é claro
é claro que é bem arborizado
fica à 5 minutos do shopping, é claro
é claro que tem tudo bem pertinho
tem padaria, mercado e pet shop, é claro
é claro que tem bons restaurantes
tem um parque bem na rua de trás, é claro
é claro que os vizinhos são um amor
tem segurança e vigilância 24 horas, é claro
é claro que muita gente quer morar aqui
o que não está claro ainda é porque
toda semana a viatura ali da esquina
só aborda gente da pele escura.

Estrangeiros

— I leave you.
— Alívio.
Foi a primeira vez que falaram a mesma língua.

Errata

— O antigo morador daqui morreu há 50 anos.
— 51! — e desapareceu.

Vigilância

— Deu muito medo…
— E nenhum policial por perto?
— Pior: vários deles.

Excomunhão

— Mãe, sou ateu.
— Não acredito!
— Então somos dois.

Só?

Solidão boa é aquela que não te abandona.

Sr. Postergo

 

Não tinha tempo para nada.
Aos 112 anos, ainda protelava a morte.

 

Meia-nove

sexo inocente
até que se provem
ao contrário.

Companhia

O cheiro doce sentou ao seu lado.
E a sala de espera virou apenas sala.

Funeral

— Qual é a viúva?
— Aquela ali, sorrindo.

Debate

— Ninguém pediu sua opinião.
— Por isso mesmo…

Alto

— Eu pensei ou disse isso?
— Disse. Filho da puta.

Ausência

— Quando ela volta?
— Ela quem, filhão?

Borocoxô

Felipinho estava mais ground do que play.

Clínica

Procura-se médico. Tratar aqui.

Bloqueio

Escreveu. Até a página dois.

Selva

— Antigamente, aqui era só mato — disse orgulhosa a depiladora.

Veredito

— Como o réu se declara?
— Entediado…

Play

“Sexo somente para reprodução”, alerta a placa da produtora pornô.

Fisioterapia

O pé direito responde.
Ele paralisa. Agora, de emoção.

Exanimado

A maca se aproxima.
E o corpo é coberto de olhares curiosos.

Troco

— Tem um minuto?
— Troca 50?

Massagem

Isso, agora mais pra direita, hmmmmm, mais um pouco, quase lá, sobe só mais um pouco, mais um pouquinho, esquerda agora, mais, mais, desce só um pouco, hmmmm, só mais um pouquinho, isso, aí, aí mesmo, no ego.

Gentileza

— Você primeiro.
— Depois de você.
— Primeiro as damas.
— Primeiro os mais velhos.
— Eu insisto.
— Eu também.
— Estou sendo gentil, porra!
— Eu também, caralho!

Alt+Tab

O chefe atrás.
E uma bela bronca pela frente.

Viril

— Viu como sou macho?
— Vi sim. Agora vira que é minha vez.

Notificação

E vibrou no bolso, o maldito. O que será agora? Maldito. Apareceu no feed esses dias uma matéria dizendo que é comum a gente sentir o celular vibrar no bolso mesmo quando não estamos com ele. A gente não, digo, quem usa muito o celular, sabe? Na verdade, nem li a matéria, só vi a manchete. Mas já deu pra entender. Coisa mais louca. E moderna. Problemas contemporâneos, digamos. Mas acontece que o meu celular estava comigo, certeza. Nunca deixo em casa, e dava pra sentir. E ele vibrou, certeza. Uma vibradinha de nada, de leve, mixurica, mas instigante. Tô tentando usar menos meu smartphone, sabe? Smart-phone. Smárrrth-phounnne. Chique, né? Mas então, tô tentando transformar o meu em celular de novo. Dar usos básicos pra ele. Tipo, só ligar mesmo, ver mensagem (sim, elas ainda existem) e usar a calculadora, quem sabe, quando for preciso. Sempre bom. Por isso decidi tirar o iPhone menos vezes do bolso. Não atendo mais assim que ele chama, afinal, quem ele pensa que é. Pensa que é só chamar ou vibrar um pouquinho que eu corro logo para os braços e bites dele. Nem pensar, nem pensar. Smartphone me controlar? Sai fora! Se bem que agora foi só uma vibradinha, posso só conferir a notificação. Ninguém está me controlando, eu que estou conscientemente tomando essa decisão. Só eu. E outra, vai que é um SMS importante, sei lá, de alguém pedindo ajuda. Isso. E se a pessoa estiver mandando um SMS justamente porque está sem internet e precisa da minha ajuda. E se ela estiver aqui por perto mesmo, onde acabei de pegar o ônibus. E se… não. Eu prometi pra mim mesmo e vou cumprir: celular só quando chegar em casa. Retângulo florescente só depois de tomar café da manhã e em casa, não no caminho nem na cama. Quem manda SMS, pode ligar também. Não deve ser nada importante. Ou então… pode ou uma notificação do Face, alguém querendo uma informação que pode mudar o rumo da humanidade ou até uma nova conexão no LinkedIn que vai me dar o emprego dos sonhos. Não posso perder esse chance, não posso ficar me podando também, não. Não, não, deve ser aquele jogo que eu baixei ontem e que já me encheu de notificação. Vou desinstalar. Sim, já sei, é isso. Pronto. Vou desinstalar. É isso. Vou pensar que é isso e vai ser. Afinal, tenho que me impor limites antes que alguém tenha que fazer isso por mim, como a minha mãe fazia. Isso, a minha mã… Eita, a minha mãe. Deve ser ela. Então vou fazer o seguinte: vou pegar o smartphone só pra desinstalar o jogo e aproveito pra ver se a notificação é da minha mã… Vivo Informa: você alcançou 100% do seu pacote de dados. Faça uma recarga para continuar navegando.

Tapa-olho

— Qual sua parte preferida de Piratas do Caribe?
— A esquerda!

Jornaleiro

– Poderia me dar uma informação?
– Prefiro vender.

First

Até para chegar a lugar nenhum queremos ser os primeiros.

Diminuto

pequenices:
sempre
peco nisso.

Sobre doer

Se machucar é estranho. De repente a carne está ali: aberta, exposta, vermelha, pulsante. E é estranho justamente porque cada ferida, por menor que seja, nos faz lembrar que somos carne. Uma carne tão frágil e fibrosa quanto a que comemos no almoço. Uma carne viva e em decomposição ao mesmo tempo. Uma carne com data de validade como qualquer outra.

É daí que vem a dor. Não dos impulsos nervosos, mas do ego. Dói lembrar que não passamos de fibras alinhadas, envolvidas de sangue e outras complexidades. Dói ver que não somos e nunca fomos indestrutíveis. Dói no cerne saber que somos somente carne.

Encosto

Resistiu o quanto pôde, mas acabou esticando as canelas.

Idealismo

Unhas e dentes de um lado.
Paus e pedras do outro.
E cegaram-se.

Fluência

Meu português é fluente como um rio.
Já meu inglês é o river.

Pró-labore

— E a minha parte?
— Aí são outros quinhentos.

Ouvidor

— Ninguém me ouve.
— E você, ouve alguém?
— Oi?

Varejo

marketing direto
no mercado inseto:
zanzando pela prateleira
fui atacadão
pelo baixo apreço
de uma mosca-varejeira.

Atitude

Não sabendo que era impulsivo, foi lá e fez.

Certas incertezas

A graça de viver está no improviso. Quem nunca improvisou na vida certamente acabou de levar o tapa do obstetra. E certamente vai começar a improvisar ainda na maternidade, quando descobrir que o choro é o sinal mais eficiente para chamar a atenção; ou mais tarde, quando perceber que o bambolê feito para rodopiar na cintura também serve para apostar corrida – e que ambos são divertidos.

Criatividade ainda é umas das coisas mais gostosas de admirar. Boa quando é trabalhada e, ainda melhor, quando é inocente. Ela pode estar na ideia que facilitou um trabalho ou na diversão da infância. O fato é que ninguém sabe quando vai precisar inventar uma história, criar uma brincadeira ou concertar uma frase. Sabemos que viver é uma incerteza infinita da qual não temos quase nenhum controle – por mais que gostemos de pensar o contrário. E, por mais paradoxal que pareça, muitas vezes nos esquecemos que tentar manter as coisas sob controle é justamente o que gera mais situações nas quais tudo pode sair do planejado. E nessas horas, se sai bem quem tem mais habilidade para criar o novo em segundos.

Tendo isso em mente, podemos concordar com outra afirmação: o improviso ensina. E muito. E faz isso de uma forma até mais dura que aquele professor ranzinza de química na 4º série. Quando o texto some da mente do ator diante da vasta plateia, por exemplo, é o improviso que entra em cena para definir se as mãos do público vão aplaudir ou vão para os cantos da boca para amplificar o som da vaia.

Trabalhar com planejamento é essencial para qualquer atividade. Mas além de programar tudo, também precisamos lembrar sempre que algumas coisas precisam acontecer por elas mesmas. E que se nada na vida é certo, é mais divertido tentar contorná-la que controlá-la. Talvez mais divertido que o bambolê.

Anotei na pele

Ainda não tenho certeza absoluta se sou a única pessoa no mundo com esse tipo de alergia, mas gostaria muito de conhecer outras pessoas com hipersensibilidade a papel. Você não tem ideia do quanto é difícil ter uma rotina onde até limpar a própria bunda fora de casa exige planejamento. Eu adoraria poder dividir essa e outras dificuldades com algum semelhante. Adoraria mesmo. Por isso, se você também tem alergia a papel e está lendo isto, eu imploro: largue esta folha – ou tablet, tela, seja lá o que for – e me liga, por favor. Eu preciso de você. Caso contrário, você pode apenas continuar acompanhando um pouco dessa droga de vida que eu levo. Prazer, Dionísio.

Acontece que mesmo aos 22 anos eu ainda não sei bem como lhe dar com isso. De certo modo, ser assim satisfaz um pouco meu egocentrismo. Dá uma sensação de exclusividade quase impossível de explicar, sabe?! Houve uma época em que eu não queria encontrar mais ninguém com esses tipos de reações alérgicas para permanecer único; mas isso foi antes de descobrir que não poderia fazer as coisas comuns como as outras crianças da escola e que eu não tinha exatamente superpoderes, como meus pais diziam.

Demorou para minha mãe me dizer toda a verdade. No início, eu apenas não podia tocar em nenhuma folha de papel. E só. Tudo era plastificado e exaustivamente inspecionado pelos meus pais na minha infância. E acredito que isso foi o bastante para encher a minha paciência juvenil e me transformar nesse poço de mau humor. Certo dia, e eu tinha mais ou menos uns 12 anos, minha mãe decidiu que era a hora de eu saber tudo sobre a minha “particularidade” – é assim que ela gosta de chamar a merda da minha alergia – e começou com a história do meu nascimento. Soube que tudo começou nos conformes: minha mãe fez força, os médicos me ajudaram a sair, meu pai (frouxo como sempre) passou mal, levei o tapa do doutor, chorei pra burro e a enfermeira me pegou daquele jeito estranho que só as enfermeiras saber pegar. Um jeito meio bruto e firme ao mesmo tempo, mas que não machuca. Depois disso, já posso dizer que tudo mudou. Logo após alguém da equipe de registros do hospital encostar meu pezinho pintado de preto na folha de cadastro, tive a minha primeira reação. Meu pezinho inchou pra diabo e todos descobrimos naquele momento que eu jamais poderia tocar em qualquer tipo de papel pelo resto da vida.

Foi a partir dessa história, e já com algum gosto pela leitura (muito provavelmente por ela ter sido quase proibida pra mim do modo habitual), que eu decidi enfrentar essa minha tal “particularidade” de frente e me tornar a droga de um escritor. E se você, leitor, acha que a maior das minhas irritações é a de nunca mais poder pegar num livro, é porque ainda não tem noção do ódio que me sobe nas veias quando eu tenho que contar toda essa história do meu nascimento para os vendedores nas lojas de sapatos quando peço um número 37 para o pé esquerdo e um 39 para o direito.

Da bicicleta

Da bicicleta, avistei a moça e o menino. Parecia ser a mãe. Olhava atentamente um papel, que logo guardou numa sacola junto a duas ou três caixinhas. Deviam ser a receita e os remédios, pois o menino tinha os braços engessados. Não enfaixados, engessados mesmo. E parecia estar com dor, pois dava pra ver que a moça o consolava. Os dois seguiam devagar até a faixa de pedestres logo à minha frente, e eu fiquei imaginando como o menino conseguiu quebrar os dois braços ao mesmo tempo. O sinal havia fechado pra eles e eu aproveitei pra pedalar mais rápido. Ainda em tempo de ver a roupa do menino suja de gesso fresco, acelerei, e fiquei imaginando como ele segurou a dor de um braço enquanto o outro era colocado no lugar. Comecei a pedalar mais e mais rápido como que pra fugir desses pensamentos e me afastei deles (do menino e da moça). Mas ainda houve tempo pra que eu ficasse imaginando como seriam os próximos dias do menino sem poder usar os braços. Como iria comer, tomar banho ou mesmo empinar pipa até o fim das férias? Passei a pedalar ainda mais forte e, num lapso de curiosidade, decidi olhar o menino uma última vez antes de seguir meu caminho. Deu tempo de ver a figura dele e da provável mãe se afastarem aos poucos, mas não de desviar do impacto certo à frente.

Horas depois, quando acordei, não precisei imaginar mais nada sobre o menino.

Corrida

Do sonho gostoso, corre para a vida real. Acorda, vê a hora, reclama em silêncio. Da cama, corre para o banheiro. Lava, seca, escova e enxágua. Do vidro embaçado, corre para o guarda-roupa. Cueca limpa, talco, último botão da camisa. Do espelho, corre para a cozinha. Suco industrializado, pão integral, prato na pia. Da mesa, corre para a sala. Carteira, maleta, smartphone, chave do carro. Da rua de casa, correu para a avenida principal e ficou parado, correndo o risco de ser assaltado.

Cumprimento

Queria dar “bom dia”, mas era tarde.

Dignidade roubada

Rapaz, a vida não tá fácil não. Ninguém respeita mais ladrão por esses lados. Tá é cada vez mais difícil roubar o pão de cada dia. Vê se pode: agora além de correr da polícia, a gente também tem que correr dos urubus. É, isso mesmo que você ouviu: dos urubus. E não é por causa do cheiro não. Meu banho de sábado é sagrado. O problema é que agora todo mundo aqui na região ficou esperto e começou a botar urubu pra tomar conta do galinheiro. Pois é, também achei estranho. Urubu andando no meio das penosas eu nunca tinha visto. Dizem que foi ideia da mulher do Seu Costa. Ô mulher ruim do cão! Ou melhor: do urubu. Agora as galinhas tão todas confiantes, sabendo que ladrão nenhum tem coragem de enfrentar um bico daquele tamanho, acostumado a fuçar carniça. Eu mesmo morro de medo. E agora, além de frouxo, tô indignado. A gente trabalha direitinho, acorda cedo, se arruma, sai pra assaltar e quando vai tomar a galinha do vizinho, além de escapar dos tiros de 12, também tem que fugir do bicho-preto. Eu preferia os cachorros faziam a segurança. Era mole dobrar qualquer pulguento. Por mais bravo que fosse, duas pedradas resolviam. Ou até mesmo um carinho, se fosse dos mansos. Agora, com esses pena-preta, não tem conversa. É bicada na canela sem aviso, sem dó. E a gente volta pra casa sem a mistura para – veja só que disparate – comer arroz com ovo.

É proibido rimar

A partir de agora a rima está proibida.
E quem for pego rimando pagará com a própria vid… POW!

A partir de agora está proibida a rima.
– Ei, você aí que tá rimando, põe as mãos pra cim.. POW!

A rima está proibida a partir de agora.
E quem for pego rimando será preso sem demor… POW!

ON/OFF

ON
Embeda o vídeo, compartilha a vida e recebe a notificação.

OFF
Se embebeda à vinho. Com par, trilha a vida e percebe: à noite fica são.

Distrações

Ela estava nas nuvens.
Ele, no cel.

Caminhões

Apenas observando, aprendeu a função que cada caminhão tinha. O pequeno e colorido era sinal de três bolas em cima da casquinha. O grande e quadrado, de que era a hora de se livrar das sacolas na cozinha. O único que ainda assustava a criança era o caminhão de mudança.

– Papai, não quero que levem nenhuma das minhas.

Gotas

e o que
a chuva
sente
caindo
ao som
de gente
dormindo?

Aparição

Negou até a morte. E depois.

Risos

A tela iluminava o rosto sério enquanto os dedos ágeis digitavam outro “hahaha”.

Surpresa!

E o primeiro pedaço do bolo foi pra enfermeira, que tornou possível seu 78º aniversário.

Distância

todo esse
asfalto
me leva
a crer
que você
faz falta.

Fios de 2015

As coisas não têm apenas um início, pelo menos pra mim. Em diversas áreas da minha vida eu sempre precisei começar projetos mais de uma vez, seja para retomá-los depois de uma pausa ou por não estar satisfeito com o resultado deles. E com este blogue será igual.

Aproveitando que escrever aqui, formatar os posts e configurar o WordPress voltou a me dar prazer, vou usar a data mais cliquê do universo para recomeços e recomeçar o Desfiado.

Algumas coisas mudaram, e você pode conferir todas na página blogue.

Bem-vindos de novo.

Contagem

depois dos
primeiros
minutos
com você
passei a
contar os
segundos
pra te ver.

Assunto

num passar de segundo
deu vontade de juntar
todo assunto do mundo.
Pra peneirar e descobrir
o que temos em comum.
Pra conversar e só dormir
quando não sobrar nenhum.

Ponteiro

teu ponteiro
repartiu
meu tempo
ao meio
entre um que
voa barato
e outro que
custa a passar
entre aquele
em que estou
contigo de fato
e aquele outro
em que eu
gostaria de estar.

Escuta

escuta;
das poucas
certezas que
trago de ontem
e das raras que
levarei até amanhã
tenho uma absoluta:
sem dúvida eu te amo.

Já ouviu essa?

já ouviu essa? nunca. sonzinho bom. parece essa, lembra? lembro. ouvi bastante. adoro o primeiro disco deles, ouve só. eita, essa não é a trilha daquele filme? correto, essa mesmo. é também a minha preferida. legal, eu prefiro aquela outra, sabe? é boa também. me faz lembrar dessa aqui, olha. isso, tava tentando lembrar o nome dela agora mesmo. é demais. é sim. ouviu isso? isso o quê? parece o rádio. não pode ser, tá desligado. então deve ser a nossa sintonia.

Vontades

a vontade
de estar
com você
à vontade.

Natal

É quase ceia-noite.

Gula de gato

dispensaria toda minha ração
só pra sentir o gosto
desse cabelo cor de salmão
e das sardinhas do teu rosto.

[à Carol, com todo o amor que couber em sete vidas]

Oposto

sou a favor
do seu corpo
contra o meu.

Delícia

afirmo que
és deliciosa
se duvidas,
eu te provo.

[2º pessoa do singular com segundas intenções plurais]

Coleci-olhar

a figura repetida
do seu olho aberto
faz o álbum
do meu peito
completo.

Geografia

pelo segredo do seu dedo
subo através dos seus pés
para alcançar o calcanhar
escalando toda sua canela
paro parelho ao seu joelho
fixo no nexo das suas coxas
e nado para a ilha da virilha
rumo à aventura da cintura
onde faço um trato comigo
de não cair no seu umbigo
mesmo que ele siga pelo meio
da sua barriga e me leve ao seio
aos dois, onde vou marcar o solo
que é pra voltar ao mesmo lugar
depois que passar pelo seu colo
pois sempre me perco no esforço
que faço pra sair do seu pescoço
e no fim te deixo na dobra do queixo
a vontade de nunca sair da sua nuca
pra continuar viajando
nessa trilha macia
que é massagear
a sua geografia.

Gostar

gostar de alguém é
pensar nesse alguém
naqueles momentos
antes de dormir que
a gente separa para
pensar no que gosta.

Energia

sou tomada
carregada na
voltagem
da tua risada

sou potente
o equivalente
à força da tua
gargalhada

sou motor
movido ao
combustível
da tua alegria

sou bateria
antes vazia,
agora viciada.

DDA

concentração é um dom
dado a poucas pessoas
para que elas organizem
o mundo e façam tudo
que tem que ser feito
enquanto outras apenas
se distraem com olha
que lindo aquele Labrador!
vem cá, cachorrinho, vem…

Paçaro 2.4

parabéns pra você
nessa mata perdida
baú da felicidade
muitos anos de vila
e a Betella nada, nada!
então como é que é?
é onda, é onda
é onda, é onda, é onda
tcha-ka-bum!

[pra Betella, inspirado no Paçaro]

Desfiada

caminhar
ao seu lado
é descobrir
que o melhor
fio da meada
a seguir
é o encaracolado.

Post

minha tara na tela, enfim
mas o efeito da foto dela
nem se compara
ao que ela causou em mim.

Você é você

das sete bilhões
e sei lá quantas
possibilidades
respirando agora
você acabou
nascendo você
o que te impede
fisicamente
de ver a si mesma
de um lado diferente
que o de dentro
e ao espelho
te limita para
admirar o corpo
no qual você habita
mas isso é só até
inventarem
algum aparelho
que te permita
ver ao vivo a carne
em que você mora
para enfim você
acreditar em mim
e ver como é bonita
a sua vista aqui de fora.

Débito

para devolver toda
inspiração que você
me emprestou
talvez eu leve anos
e que assim seja
pois prefiro continuar
em débito, sem renda
nem a mínima ideia
de como pagar
quero tão somente
que essa dívida aumente
com juros composto
correção monetária
e que de repente
eu te deva até as calças
até os dentes, eu não ligo
desde que você me ligue
no meio da madrugada
a cobrar, oferecendo
parcelamento e a sua vista
prometo que aceito e
ignoro qualquer gerúndio
se você me transferir
várias vezes para bem
perto de você.

 

Pressa de julho

entendo a pressa
que julho tem
pois no lugar dele
a teria também
pularia semanas
correria os dias
apressaria o jeito
que tudo se move
e só ficaria satisfeito
quando tivesse feito
chegar o dia
vinte e nove.

Habeas Corpus

sou suspeito
pra dizer
que adoraria
estar preso
em você.

Curiar

eu doido pra saber
o que se passa
nessa sua cabecinha
ao mesmo tempo
em que me lembro
que você
não sai da minha.

E se?

se eu dissesse
à queima roupa
“quero te conhecer!”
seria coisa louca?

se eu convidasse
o que temos em comum
para um passeio
você iria sem rodeio?

se eu contasse
tudo o que sinto
ao pensar em ti
você viria até aqui?

se tu disser sim
eu digo,
convido
e conto.

deixo essas questões
pra outros corações.
pego o seu pra mim
e ponto.

O azar é só dela

I.
a cada dia que passa
você perde um dia inteiro
de chances de ver que graça
são os cachos miúdos sobrando
na sua nuca, que mais parecem
filhotes de cachos que se recusam
a ficar longe do seu cangote
e o azar é só seu.

II.
a cada semana que passa
você perde uma semana inteira
de chances de ver o tom exato
vermelho-morango-danoninho
que as suas bochechas ganham
quando ficam com vergonha de
alguma palavra sem-vergonha
e o azar é só seu.

III.
a cada mês que passa
você perde um mês inteiro
de chances de ver como fica o
seu rosto deitado, respirando
o sono calmo e tranquilo que em
seguida – num piscar de olhos ainda
fechados – se transforma em preguiça
e o azar é só seu.

IV.
sua sorte, Betella
é que a cada ano que passa
você fica mais bela.

Mare de azar

Tropeçou na sétima ondinha.

Tribunal

– Volte você e seu advogado para o Inferno!

Biblioteca

Encantou-se quando a viu lendo.
Tanto que esqueceu onde estava ao puxar assunto:
– Com licença, onde fica a sessão de congelados?

Se foram

Foram-se os mestres do texto conciso e com riso.

[homenagem a Chico anysio e Millôr Fernandes]

Clima cinza de Dublin

– Arrume as malas, querida. Seus olhos azuis merecem mais cores.

Café

Na madrugada, era só ele e seu amargo amigo.

Fome

José estava farto de não ter o que comer.

Psiu

O pé bateu no chão, a vassoura bateu no teto; e logo a polícia bateu na porta.

Faroeste

É o atirador mais rápido do Oest… era.

Páscoa

Procurar ovos pela casa perdeu a graça quando o vô passou a andar só de samba-canção.

Etiqueta

Usou a faca de peixe para cortar a piranha que flertava com seu marido.

Parabéns

E o primeiro pedaço foi para o doutor, que tornou possível seu 98º aniversário.

Livre

Fechou a gaiola e escondeu a chave embaixo do tapete.

Rato branco

– Não posso reclamar. Todo dia é uma nova experiência.

Fim

Beijaram-se como se não houvesse amanhã. E não houve.

Amazônia

Nunca teve olhos verdes. Resolveu se vingar do planeta tirando o verde dele também.

Pressa

O tempo passou. E agora na praça, ninguém mais tem pressa.

Índio

– Mim ser homem branco.
– Desculpe, o certo é “eu sou”.

Amizade

Metade do pão ao cão. E morreu por ter o coração maior que a barriga.

Tecido

Naquele momento, quando arrancou algumas páginas para vestir, percebeu que deveria comprar menos livros e mais roupas.

Obesidade

Engordou ao ponto de sua autoestima não lhe servir mais.

Canção

A voz forte do empresário o ajudou a conseguir ainda mais cifras.

Cobrador

– Pode passar por baixo, moço?
– Só se for por baixo do ônibus.

Massagista

Depois de um dia relaxante, tirou um tempo para se estressar.

Velório

Pela primeira vez Dona Odete recebeu flores.

Programa

– E anal?
– Nem fodendo!

Atraso

Desculpa a demora, amor. E aí, é menino ou menina?

Reencontro

O corpo mudara um pouco, mas o olhar ainda era o mesmo.

Vacilo

Pensou que estava descarregada.

Táxi

– Pra onde a senhorita quer ir?
– Sabe que às vezes eu me pergunto a mesma coisa?!

Filme erótico

Chegou ao clímax antes do roteiro.

Fila do Banco

O primeiro sacou 300 reais. O segundo, um revolver.

Cowboy

Foram 8 segundos em cima do touro e 8 meses em cima da cama.

Hipster

Ao descobrir que todo mundo também respirava, sufocou.

Fiel

Prometeu dar para o primeiro que visse.
Foi de olhos fechados à casa do namorado.

Medida

pra saudade não apertar:
lembrança dois números maior.

Zumbi

Por medo de ser infectado, desistiu de atacar o plenário.

No clima

viu a chuva chegar
e passou rapidamente
a andar mais devagar.

Do peito

Rádio ligado na sala de cirurgia e Flamengo no ataque. Dois corações pararam.

Goma

Na hora, todos desconfiaram do aperto de mãos entre o dentista e o dono da fábrica de chicletes.

Surpresa

Pegou a mulher na cama com outro. Mas não o mesmo da semana passada.

Fases

Até ontem alimentava paixões. Hoje, só gatos.

Dose

Entrou chutando a porta e silenciando o salão. Bateu a mão no balcão e pediu:
– Ui, me vê uma água sem gás com bastante gelo e limão espremido!

Estilista

Fazia sucesso com as mulheres.

Ódio cão

Odiava cães. Odiava até os próprios dentes caninos.

Batata

– Acompanha fritas?
– Depende. Esse tal de Fritas é bonito?

Trânsito

Um atrás do outro, mas ninguém sente prazer.

Retorno

O mar, enfim, devolveu o corpo.

Calor

Cuspiu no chão. O chão agradeceu.

Sono

Graças ao tédio e ao balanço suave do barco, pescou.

Perfurme

Ela, vaidosa, borrifou seu melhor perfume. Ele, alérgico, seu pior espirro.

Embora

embora não queira
vou embora não
queira vou embora
não queira vou
embora.

Ninguém

ninguém tem tempo
pra ninguém tem
tempo pra ninguém
tem tempo pra
ninguém.

Subliminar

– Caro cliente…
E perdeu a venda na primeira palavra.

Boleia

Outra noite em claro.
E o sonho de entregar também um futuro novo para a família.

Na lona

Caprichou na maquiagem pra conquistar o dono do circo.
E conseguiu o emprego.

Swing

Os casais se conheciam, divertiam e vice-versa.

Última refeição

– Tem Coca Zero?

Despertador

Seu encontro com a mulher dos sonhos terminou na cama.

Zip

Eduardo Magalhães de Vasconcelos se formou em Tecnologia da Informação.
E virou o “Edu do TI”.

Atacado

saúde negociada
no bar da esquina:
um maço de dinheiro
por outro de nicotina.

Criação

só há uma explicação
para tanta discussão:
Deus escolheu
a mais complicada
das costelas de Adão.

Itinerário

no ponto
sozinho
esperando
a linha
do coletivo.

Vizinhança

À esquerda da fofoqueira e à direita de um assassino.
Logo percebeu que escolhera o apartamento errado.

Queijo

Na Lua, o astronauta ficou na mão, apenas com o pão.
Esqueceu a faca na Terra.

Classificados

Assinalou as vagas que tinha interesse.
Preferia as morenas e sem frescura.

Transfusão

– Esse é tipo A ou B?
– É O negativo.
– Me refiria à classe econômica do doador.

Sala de espera

O jovem fingia interesse na revista velha.

Dobro

– Olha os gêmeos pra mim um minuto?
– Não e não.

 

Crença

Acreditou em espíritos até pegar um na mentira.

Pintor

Ela é daltônica. Ele não desiste.

Carícia

mão morna
na nuca
nunca
machuca.

Brochura

A biografia do ex-impotente acaba de ganhar uma edição com capa dura.

Férias

Afrouxou a gravata e mergulhou com roupa e tudo.

e-namorados

O antigo computador foi padrinho das Bodas de Porcelana.
Afinal, foi através dele que se conheceram, em 1997.

Amante letrado

Começou CIÚME. O “Ú” prometeu que aquela briga com o “I” seria a última, e foi embora. O “R” aproveitou para se revelar e enfiou-se logo atrás do seu amado “I”, pois não sabia o que era bigamia. Virou CRIME.

Pé na areia

Desenterrou o antigo sonho de ver o mar.

Fantasma

Desejou ter duas vidas.
Esqueceu de pedir duas mortes.

Filme

Viu a vida toda passar diante de seus olhos.
No final da sessão, aplaudiu de pé.

Recém-casado

– E essa pança?
– Pois é, veio junto com a aliança.

Aluno

Perdeu a conta das vezes que fugiu da aula de matemática.

Temperamentais

Ela era quente. Ele, frio. E a relação, morna.

Distância

Mochila nas costas para mais uma viagem.
Destino: escola.

Comida cômoda

Mora sozinho e não sabe cozinhar.
Tem sua independência industrializada.

69

Os opostos, sem ar, traem.

Guloseima

Encheu o carrinho de verduras, esvaziando as esperanças da filha gulosa.

Paciente

Teve que esperar três anos para receber alta do hospital.

Mamilos

Salientes: ou é o frio que vem de fora ou o calor que vem de dentro.

Assombração

– Vou ali me suicidar e já volto.

Artigo

– Como é difícil escrever sobre sustentabilidade!
Reclamou Alice, rasgando outra folha.

Velha sorte

Felicidade por um dia: tinha Alzheimer quando ganhou na loteria.

Espelho

Refletiu durante toda a vida.
Quebrou sem chegar a uma conclusão.

Circo

O elefante do marido não dava show nem recebendo amendoim.

Quase perfeita

Linda, inteligente e charmosa.
Seu único defeito era saber disso.

Vida cinza

Gisele nunca havia tido um relacionamento longo. Era exigente. Preferia os mais encorpados. Escolhia a dedo. Admirava e depois pagava. Caro. Costumava usá-los e depois pisá-los. E se achava elegante por isso. Gostava de mostrar a todos que os tinha nas mãos. Pensava estar no controle da situação. Demorou a perceber que eles faziam mal. Fumava, em média, dois maços por dia.

Natural

Resolveu tornar o dia da esposa especial. Acordou antes dela, foi na ponta dos pés até a cozinha e, sem fazer barulho, preparou café da manhã com tudo que ela tinha direito. Assim que ela terminou de comer, ele abriu o guarda-roupa, tirou uma caixa de bombons, uma flor e a presenteou, enquanto dizia o quanto a amava e o quanto ela era importante pra ele. A emoção veio naturalmente. Depois a deixou livre pra ir ao salão e fazer compras. Lá pelo meio da tarde ele avisou por SMS: “hj vamos jantar no italiano novo q vc queria. 21h. Esteja pronta! Bjão”. O sorriso veio naturalmente. Ele acompanhou pacientemente o banho e as quatro trocas de roupa dela. Saíram. No jantar regado a vinho ele disse o quanto ela estava linda. Estava mesmo. Conversaram muito. Depois resolveram andar. Pararam num puído banco de madeira e ficaram ali com o silêncio por um tempo. O beijo veio naturalmente. Logo o clima os expulsou dali. Ele a protegeu da chuva com o paletó. Correram e chegaram no apartamento 12. O banho veio naturalmente. Jogaram-se na cama, e ele ainda teve pique para fazer a prometida massagem nos pés dela. O bocejo veio naturalmente. Ela acabou dormindo aconchegada no peito dele, que passou a noite toda em claro, pensado em como poderia surpreendê-la no dia seguinte, naturalmente.

Ex-fumante

Encheu o peito de ar, gritou: Chega de cigarro! – e se esvaziou em tosse.

Maníaco

Observava, capturava e as deixava em um quarto escuro.
Tinha a mania de revelar as próprias fotos. Achava mais seguro.

Caminho letrado

Obviamente, comecei pelo “A”. Abracei-o. Estava disposto. Andei bastante, e só parei quando um meigo “M” se mostrou. Trouxe-o comigo. Mais alguns passos e um “O” começou a me observar. Veio junto pra mochila. Resolvi levar só mais uma letra. Um “R” esperrrrto logo à frente, percebendo minha indecisão, acenou animado. Foi recolhido também. No fim do meu passeio, abri a bolsa para distribuir as lembranças da minha viagem pelo alfabeto às pessoas que amo.

 PS: o “R” rosnou pra mim. Ficou bravo por não ter aparecido na última palavra deste texto.

Satisfação reciclada

Seu Antônio, ou Toninho – como era conhecido – era acostumado com o julgamento alheio. Mesmo sabendo que é impossível não ligar para o que os outros dizem e pensam, aprendeu a ignorar a maioria dos olhares e comentários. “Lá vem Toninho atrás de lixo!” muitos pensavam e poucos sussurravam. Seu Antônio não se importava tanto e até mantinha contato com alguns moradores da Lapa: os que o ajudavam a separar os materiais para reciclagem. Toninho era cumprimentado pela sua simpatia até um pouco admirado pela sua vitalidade. Passar o dia inteiro recolhendo sucata para garantir o sustento da sua família era um trabalho digno, mas não agradava totalmente Toninho. Dava pra sentir em seus olhos que o fato de não ser o presidente da ONG multinacional onde trabalhava o transformou em um executivo-chefe frustrado.

Devota

Tinha o quarto cheio de velas e muita fé.  Acreditava piamente que logo conheceria o homem certo para compartilhar daquele clima romântico.

Comércio vagão

No trem, alguém anuncia guias da nova ortografia da língua portuguesa por cinquenta centavos. Pouco tempo depois surge outra oferta: “chicrete” a 1 real.

Despejo

Despediu-se carregando malas, dívidas e dúvidas.

Domingo

Aos poucos, outro dia vadio se afasta.
Vá, dia! De inútil aqui, só eu. E basta!

Detento

Na parede da cela, o número maior marcava os crimes que havia cometido.
O menor, os anos que ficaria detido.

Camomila

Planos para hoje: chegar em casa, relaxar, preparar um bom chá e ter como única preocupação não deixá-lo esfriar.

Motoboy

Costurava confiante entre os carros.
Acabou costurado.

Munição

Calibre 38 e capacidade para seis vítimas.

Naquele tempo

Lembro com carinho da época em que meu único desafio era lutar contra a preguiça, sair da cama e calçar um par de meias. O frio este ano veio junto com a saudade. Sinto falta dos invernos da minha infância.

Rafting

foi de repente:
o bote virou
e o algemou
em água corrente.

Sobe?

No elevador, mau cheiro e mal-humor.

Escada rolante

Sem escada rolante a cidade grande não funciona. Não há metrópole com seus shoppings, estações de trem e edifícios que continue em harmonia sem os famigerados degraus automáticos que encantam as crianças e amedrontam os caipiras. Quem opta pela esteira metálica é rapidamente visto como preguiçoso ou sedentário. Injustiça. Não é você que escolhe ir de escada rolante, é ela que te seleciona. Quem insiste em subir ou descer sem convite é castigado. O puxão vem de baixo, pelo laço do cadarço. Os poderes da escada rolante ainda são desconhecidos pela maioria das pessoas. Pouca gente reparou na sua fantástica capacidade de nivelar atrasados e adiantados na mesma velocidade, equilibrando o funcionamento dos bairros, cidades e do mundo.

Torço para que ninguém pense em um dia desligar todas as escadas rolantes da Terra ao mesmo tempo. Tenho medo do que isso pode causar. Talvez o dia tenha menos horas; talvez tudo fique em câmera lenta; Ou talvez só percamos algumas calorias a mais por sermos obrigados a usar as escadas inanimadas. É difícil prever. O que sei é que prefiro continuar tropeçando em tempo real.

Mixódia

Sua beleza confunde. Não sei se gosto mais dos óculos curtos, do cabelo desenhado na nuca ou da tatuagem de armação fina.

Boca fechada

Uma das situações mais constrangedoras que conheço é quando uma mosca insiste em rondar alguém. Na primeira vez, tudo bem. Talvez tenha errado o caminho. Pegou uma informação errada na viagem e acabou parando na sua testa. Ou talvez não ela não errou. Você a atraiu. E é aqui que pousa o constrangimento. A voadora imunda poderia estar zanzando em volta de algum animal morto ou mesmo esfregando as patinhas de alegria ao encontrar um cocozão, sua próxima refeição. Mas não, ela quer você. É amor à primeira vista – e olha que ela enxerga bem. É amor pra vida toda – que pra ela significa, no máximo, 60 dias. Você provavelmente é o primeiro amor dela. Sim, as moscas também amam. O amor de SP está no rio Tietê. Amor de mosca também é importante, porra! Só é menos importante do que entender que uma mosca perto de você na verdade é um singelo recado da mãe natureza ao filho porcalhão:

– Vá já pro banho! 

Ritmo

Ela prefere compressa lenta.
Eu prefiro divagar veloz.
Com o tempo a gente se acerta.

Moda feminina

Dois caipiras assistem a um desfile de moda e olham com estranheza para todas as modelos que passam. Eles cochicham e fazem imitações, chegando a incomodar outros convidados, que também estranham a presença deles no evento. No fim do desfile, os caipiras suspiram aliviados em sincronia, se cumprimetam com alegria e se unem ao grupo de outros caipiras que aguardam na porta de entrada do evento.

– Cês tinham que vê! Era cada roupa estranha; uma assim, outra assim.
– Tá, mas e aí… tá ou não tá na moda, cumpadi?
– O que? Ô se tá! Só passô muié por lá, sô!

E todos festejam.

Poderosa

Provoca torcicolo nos homens, inveja nas mulheres e briga entre casais.

Sexo selvagem

Durante o dia caçava. À noite, comia.

Saldão

“Queima total de estoque!”, dizia a faixa na loja de fogos.

Nerd

Tinha um HD no lugar do coração. E muito espaço vazio.

Talento

Tornou-se um político de mão cheia.

Estilo de vida

Despertador. Bom dia. Preguiça.
Café da manhã. Agenda. Jornal.
Trânsito. Correria. Atraso.
Apresentação. Gráficos. Aplauso.
Almoço. Sobremesa.
Sono. Cafezinho.
Relatório. Entrega. Até amanhã.
Casa. Delivery. Banho.
Cama. Despertador.
Rotina agitada. Ritmo intenso.
A cidade nunca dorme. Ela quase.

Esperança

Revirava o lixo procurando por um passado que pudesse ser reciclado.

Opção

Despertou, olhou em volta e decidiu voltar para o pesadelo.

DR

Discussão: tensão.
Reconciliação: tesão.

Paradoxo

Ousada o bastante para usar vestido curto.
Tímida demais para retribuir aos olhares.

Nota vermelha

No boletim, só A+: sangue do filho, após o corretivo do pai.

Consciência

Reclamei até ver as marcas nas mãos de meu pai.
Hoje, me calo.

Choro

sentiu o gosto
da lágrima
que escorreu
no rosto.

Mobília

Fez as contas e percebeu: a linha branca da cozinha vai custar uma nota preta.

Aviso

Na limpeza do plenário, a placa amarela no chão alertava: “Cuidado! Gente escorregadia.”

Substituída

No aeroporto, viu seu grande amor ir embora.
Em casa, o pequeno caso o aguardava na cama.

Morte

Olhou pra frente e pra trás antes de atravessar a vida.

Tattoo

Tinta, agulha e nervos à flor da pele.

Cavalheiro

– Você primeiro.
– Obrigada!

“Isso que é homem”, pensou ela.
Ele pensou o mesmo, trocando “homem” por “bunda”.

Fanático atemporal

Adorava aquela Bienal. Ia todo ano.

Busca

te acho
uma perdição.

Rima

– Pai, o que é rima?
– Ah, é quando uma palavra atrai outra com final parecido.
– Atrai?! Já sei: a rima é um imã!
– Não exatamente. Elas não se atraem, só ficam próximas.
– Próximas? Então a rima é uma irmã.
– Quase isso.
– Não compreendo, e minha cabeça tá doendo.
– Isso aí, filhão!
– ?

Sinal vermelho

– Vai descer! – gritou no ônibus, aflita e sem absorvente.

Corporal

Seu corpo oral me chama.

Esconde-esconde

Para não ser visto, ficou de canto.
Brincadeira boa. Esconderijo nem tanto.

Noite ideal

Poderíamos estar em algum hotel barato da França, tomando banho juntos num banheiro apertado; com um edredom fofo e uma garrafa de vinho tinto nos esperando ao lado da TV; que estaria ligada em um jornal local, do qual daríamos muita risada, já que não entendemos nada de francês. Poderíamos. Mas preferimos ficar aqui rindo da nossa própria imaginação.

Mais uma cerveja?

Pedido

Pensou em tudo. Escolheu o restaurante, combinou a roupa e até se dedicou a ler um grosso manual de etiqueta. O jantar correu bem. Entrada, lagosta, sobremesa e vinho. A conversa fluiu, pois tinham muito em comum. Fazê-la sorrir o deixou confiante, e essa foi a deixa para que ele finalmente fizesse o pedido:

– Racha a conta comigo?

 

Ego

A única coisa que deveria girar em torno do nosso umbigo é o sabonete.

 

Memória de madeira

Acredite em mim, sempre esqueço qual é mogno e qual é marfim. Confundo coisas comuns do mundo, pois convenhamos: viver é bom à beça, mas ter que lembrar de tudo é um fardo. Eu mesmo só guardo o que me interessa: a lembrança de criança, a esperança adolescente e meu presente como adulto. Viver é árvore. Recordar é fruto. Memória tem galho forte e uma vez talhado o dado não adianta apelar pra sorte. Nem querer que a mente esqueça. Lembrei! Deve ser por isso que nem o teu sumiço tirou você da minha cabeça.

Pelo menos

Na mesma noite sonhou que era atropelada, que levava um tiro e que ficava monocelha. Temendo que esse fosse o anúncio de um desastre, comprou uma pinça.

Cotidiano

Os olhos de Danilo abrem aos poucos. 5h29 da manhã. Ele se espreguiça, derruba o controle remoto e dá um longo bocejo. Fica feliz ao ver que acordou antes do despertador. Chega até a esboçar um tímido sorriso que, provavelmente, será o único do dia.

Siga

o caminho
a seguir
é o próximo.

Aniversário na gafieira

Mais velho. De novo. Comemorando com meu povo. Agradeço o agrado, mas deixo de lado. Nada contra embrulho, mas prefiro gente. Nesta festa só quero os amigos de corpo presente. Quero ver minha gente reunida nessa data querida. Por isso só convido gente com vida. Não importa quem seja, aqui só entra quem festeja. Só entra quem pode. Quem sabe de samba e quem pega o pagode. Um trago no cigarro. Trago também gente levada, gente que apronta. Garçom, manda outra rodada que hoje é por minha conta! Aprendi com a malandragem que vida bandida é bobagem, bebida pouca é besteira e que não tem maior prazer que comemorar mais um ano enchendo copo americano de cevada brasileira.

Amor-tecido

Otto demorou para perceber que quem ele amava o manipulava. Antes fosse com a palavra. Clara não dava ponto sem nó: dizia o que queria com aquilo que vestia. Truque aprimorado com as trocas de vestuário em frente ao espelho do armário. Arte e manha já estampadas nos modelos que ela elegantemente descartou antes de namorar o ingênuo Otto.

Quatro meses juntos e quase não se conversavam. As roupas de Clara falavam pelos dois. Camisola de seda: Otto cedia, cedo e sem brigar. Calcinha de renda: Otto se rendia, sem nem argumentar. Ela vestia, ele obedecia. Foi assim até a primavera, quando esse amor saiu de moda. Foi assim até ela vestir a grande saia e o tomara que caia. Otto ficou descosturado, mas entendeu o recado.

Do cão não passa

Aquele cachorro tinha sensor de velocidade, só pode. Me viu surgir na esquina e levantou as orelhas em sinal de alerta, com os olhos fixos nos meus movimentos. Os mesmos olhos me desafiavam friamente. Não retruquei.

Diminui o passo pra passar despercebido. Era tarde e não havia sequer um pombo na rua. Talvez a escuridão me escondesse. Talvez tenha um gato no muro atrás de mim. Talvez o cão seja cego. Tentei ignorar a situação, mas no fundo sabia que ele enxergava muito bem e que a provocação daquele olhar era pra mim. E só pra mim.

Chegando perto, notei a ausência da coleira. Correr era a última opção. Tentei. Sem sucesso. Como um ponta-esquerda que conhece os atalhos do campo, ele disparou na minha direção, cruzou três faixas e me multou. Minha cueca na hora registrou o comprovante.

Excedi a velocidade de batimentos cardíacos permitidos naquela rua. Não vi a placa. O medo foi minha infração. Cães sentem isso de longe e este me puniu. É a lei. Ainda tenho as marcas da canetada na canela: dois pontos cinzas. Cinzas como as faixas refletivas no uniforme de um Pastor Alemão treinado para farejar um tremendo medroso a quilômetros de distância.

Dor quase não senti, o medo não deixou. Os gritos não saíram. Não deu tempo. Foi uma abocanhada rápida e certeira, da qual qualquer canino se orgulharia pela precisão. Depois dela, o pulguento nem se deu ao trabalho de me ver tropeçando em meus últimos passos de fuga desmantelada. Virou as costas e voltou calmamente ao seu posto. Abriu um sorriso debochado no focinho, sacou seu bloco de papel, me olhou com ar esnobe e, satisfeito, fez uma anotação. Jamais vou esquecer dessa cena. Nem dos dentes. Nem do desdém.

No hospital, recebendo a antirrábica, ainda me arrepiava ao lembrar do rosnado negro e da gengiva vermelho-sangue daquele maldito marronzinho.

De olho

Foi visto com uma pupila e, logo, delatado.

Dezembro de 95

A carta na caixa do correio finalmente foi encontrada, quase congelada. Rudolph, a rena mais experiente, viu a data e fez questão de levá-la para dentro o mais rápido possível. 9h11 da manhã e a porta do escritório ainda entreaberta. O silêncio é interrompido pelas patas de Rudolph no chão de taco, que logo são abafadas pelo tapete onde repousa a mesa central de carvalho, a poltrona bege e o velho. Rudolph deixa a carta já úmida sobre a mesa. O velho ainda dorme com a garrafa na mão. Os botões da bota preta já não reluzem como no dia 25, mas ainda davam certo charme ao que restou do uniforme vermelho. Os botões da camisa davam por falta. Os pelos grisalhos do peito respiravam liberdade, ajudando a compor uma cena triste porem comum de janeiro a novembro.

A tossida seca do velho espanta Rudolph e derruba o envelope ex-colorido, que escorrega pra baixo da estante e vai secando, junto com a esperança de Felipinho ganhar sua bicicleta nova.

Doce

pra formiguinha
nova vizinha
tem açúcar na cozinha.

Jô e Aninha

Faz um pernilongo tempo que te percevejo, pequena Ana. Mas sei que moça tão libélula como você jamais teria olhos para um escaravelho como eu. Por isso esta carta barata pousa em sua pata, sem data. É a declaração de afeto de um amoroso inseto. Leia antes que a traça o faça. Se seu marido descobre tal ocorrido, será o fim deste pobre cupim. Capaz de ele pôr o formigueiro inteiro a procurar por mim. Sendo assim, não te dou esperança de saber meu nome, paradeiro, nem o dia certo que seu voo esperto me encantou. Deixo dentro do seu ouvido apenas um apelido e, atrás da sua orelha, a dúvida de quem sou.

 Do seu admirador quase secreto.

 Jô.

Política

Voto contra a democracia.

Ofício

Escrever é o seu papel.

Quina de Contos

quina-de-contos

O microconto foi um dos primeiros tipos de texto pelos quais me interessei a escrever. E foi também um dos meus primeiros contatos ativos com a literatura. Assim, não demorou muito para eu conhecer escritores profissionais e amadores do gênero e, com muita sorte, ter alguns deles como amigos também. Esse é o caso do André, Brunno, Guilherme e da Helena: quatro aventureiros da escrita que um certo dia toparam criar e abastecer um grupo no Facebook dedicado aos microcontos.

No grupo, funcionava assim: qualquer um poderia sugerir um tema. Um por dia. E todos tinham que escrever um microconto sobre. Não havia limite de toques, nem qualquer ordem para publicar. Apenas vontade de escrever. Com os dois anos de grupo, veio a ideia de publicar um livro, ou melhor, um e-book com os melhores textos de cada um. E o resultado foi esse, após 5 meses de edição e a capa linda da Maiara Schiasse: o Quina de Contos.

Um orgulho.

Você pode ler uma prévia clicando aqui. E se gostar, pode comprar na Livraria Saraiva.

Prova

Entrou e experimentou vários.
Saiu triste. Continuava solteira.

Precoce

– Acho que vou gozei!

Receita

Arroz com lágrimas. Foi o risoto daquela noite.

Tempo a ganhar

“Momento certo” é medo. Se apronta que hoje eu te pego mais cedo.

Lendo o futuro

Desejo uma sociedade com mais cultura, onde ao invés de “bom dia” todos se enganem e digam “boa leitura”.

Rebelde

Esperou anoitecer para fugir de casa. Voltou antes do jantar.

Ouvido

– Qual seu tipo preferido de música?
– Alta.

Esconde

Para não ser visto, ficou de canto.
Brincadeira boa. Esconderijo nem tanto.

Fora

Encarou a bunda do namorado.
O pé estava pronto, só precisava escolher o lado.

Fim de mês

Rapidamente a mãe anotou o que faltava em casa.
Já no mercado, o pai tirou do bolso a lista de um item só: “tudo”.

Estela

Admiravam o céu da meia-noite.
– Bonita, né!? – ele disse.
– Linda! – ela respondeu.
– Desculpe, estava falando com a Lua.

Admin

Aí de mim, admin, que tomo conta deste site.
Às vezes vem um vírus ruim, sem login, e me byte.

Praia

desabafar para o mar
com pé na areia quente
faz melhorar e não dói.
a maresia só corrói
quem não diz o que sente.

Dois

Depois dos gemidos, vieram os gêmeos.

Torrente

– Qual sua opinião sobre a correnteza?
– Nada contra.

Mãos à obra

Essa deve ser a sexta ou sétima galeria de arte só este ano. Já perdi a conta. Longe de mim reclamar, mas é que ainda não me acostumei com esse lance de ficar exposta, sabe?, com toda essa gente olhando – mesmo sabendo que nasci pra isso. Meus colegas de exposição se dão melhor com a situação. Os telões do audiovisual, por exemplo, não viam a hora de serem instalados no corredor e percebi também algumas esculturas entusiasmadas com o novo período que vamos ficar em cartaz. Já eu, talvez, precise de mais tempo pra entender meu papel nisso tudo.

Seria mentira se dissesse que não gosto do que faço. Tenho lá meus momentos de diversão e tudo mais. Primeiro porque nas exposições a gente encontra todo tipo de visitante: desde aqueles senhores que usam agasalho de lã nas costas e fazem cara de conteúdo na nossa frente até os garotos perdidos que saem da escola e vêm pra cá quando não têm nada de melhor pra fazer. Sem demonstrar, é claro, me divirto sadicamente com a nobre esperança dos professores tentando resgatar a atenção dos adolescentes dos smartphones e colocar nos quadros. Ou quando chega algum Preguiçoso Cultural – nome que damos àqueles que vêm à galeria só pra tirar foto das obras e das plaquinhas de identificação sem nem olhar as peças, digamos, ao vivo; talvez seja pra ver depois em casa, vai entender. São essas e outras figuras humanas que aparecem de vez em quando e fazem o dia valer a pena. Assim como sentir que estou levando o sentido da minha existência até pessoas realmente interessadas em arte – não preciso nem dizer que essa é a melhor parte e que a gente se esforça muito pra isso acontecer.

O que me desanima um pouco é saber que muitos não têm a mínima noção do nosso valor. Desse valor incalculável não por ser monetário, mas por ser artístico. Um valor que nasce da eletricidade gerada entre as intenções do autor e as pinceladas na tela. Isso, por si só, já me dá vontade de saltar desse barril e me deixar levar corredeira, mas ainda assim tem um outro valor que também é pouco reconhecido. Aquele que vem logo após a última pincelada: o de ser exibida.

Muitos pensam que a vida aqui é fácil. Principalmente alguns semelhantes que nem saíram do cavalete ainda. Mal sabem eles o quem vem pela frente. Isso vai além de ficar parada na parede e me deixar admirar. Poucos sabem como é desgastante viajar dentro de caixas, ser embalada e desembalada várias vezes; não sabem como plástico-bolha é sufocante; e nem imaginam o esforço necessário para manter minhas cores originais depois de receber flashes de desavisados. Essa vida é pra poucos, amigo. Pergunta pra Monalisa se é fácil sorrir 511 anos sem parar. Se ela pudesse sair da posição, certamente encheria a cara e desabafaria no seu ombro na hora.

Portanto, deixo aqui uma dica valiosa: quando vier a uma exposição, lembre-se do trabalho nobre que nós obras fazemos para manter a arte viva. Faço uma força incrível pra manter o olhar fixo, não me mover e transmitir a mensagem mais pura que meus traços e tons conseguem. E mesmo tendo que ficar ajoelhada por horas com esse remo pesadíssimo na mão, continuo aqui pronta para quem quiser me apreciar. Torcendo pra que na próxima exposição eu me sinta mais a vontade com isso tudo. Daria minha moldura pra isso acontecer o mais rápido possível.

Doce tédio

Deitada e sem sono, formigava de abandono.

Amor nascente

Eu disse “há mar”.
Ela rio.

Conectar

No ônibus, me sentei entre dois lugares vagos. Alguns minutos depois um casal de meia idade passou pela catraca e veio ao meu encontro. Só havia aqueles lugares livres e, durante os poucos passos que os dois deram até mim, cada um escolheu um. A mulher bem arrumada preferiu se sentar à minha esquerda. O homem iria sentar-se à minha direita quando o interrompi, roubando seu lugar e deixando vago o banco ao lado de sua mulher. Meu ato foi recebido com um sorriso sincronizado do casal, que retribuiu com uma agradável conversa.

Não lembro por quanto tempo conversamos. Nem olhar para o relógio eu queria. Tive apenas as leves preocupações de guardar o celular no bolso e olhar pela janela rapidamente pra não perder o ponto. Falamos sobre futebol, profissões, sobre artistas dos anos 80 e sobre o clima – esse último, inclusive, foi o assunto que mais durou. O casal era de Florianópolis e foi conciso ao me indicar viagens pelo Brasil, apresentando os pontos turísticos e o clima de cada região. Dava pra ver que ambos eram bem viajados e bem casados pela alegria que transmitiam ao relembrar das viagens, pelas alianças apertadas nos dedos e pelas mãos dadas. Além disso, os olhares entre eles confirmavam a cumplicidade.

Tive que descer. Uma pena. Há tempos não tinha um papo tão bom com gente desconhecida. Chat não conta. Ou conta, mas nem tanto assim. Deixei aquele ônibus mais leve e animado. O discurso de que conversas pessoais são mais interessantes é totalmente real. Como poderia ser diferente? O que é mais prazeroso que o contato humano? O problema é que nós, de alguma forma, deixamos de sentir a falta disso: falar por in-box hoje basta. Curtir e cutucar basta. Estou nessa também, tentando mudar. Culpa da tecnologia? Não. Culpa nossa. Somos livres para escolher conversar com a pessoa ao lado ou verificar mais uma vez nossa timeline. Hábitos mudam e todo mundo é livre pra mudar os seus. Não acredito que sair radicalmente do universo on-line seja a solução. Como em varias outras questões na vida, quando falamos de comportamento e interação social temos que buscar o equilibro – lugar difícil de alcançar, diga-se de passagem. Por isso me propus a buscar o equilibro entre interações on e off. Sabe, já ouvi o pensamento de que “buscar viver com menos é melhor do que buscar ganhar mais”. Faz todo sentido. Adaptando esse raciocínio para o mundo das interações, penso que talvez melhor que tentar interagir com o maior número de pessoas possível nas redes sociais, seja se conectar pessoalmente com poucas e boas pessoas. E casais.

Estações

prima Vera dizia:
um dia vocês verão
que outono cai no chão
e que inverno é uma fria.

#CAIU

Ônibus cheio. Com a mão direita ocupada pela bolsa pesada, teve que decidir entre se segurar e checar suas redes sociais no celular. Postou-se no chão. Foram seis notificações na testa.

1% de bateria

Liguei pra dizer que gosto de tu-tu-tu…

Incisão

corte no dedo médio.
sorte que tem remédio.
desastrado olha pro lado,
pois vê sangue e fica tonto.
costura também cura.
sutura. e ponto.

Meio confuso

Ei, você! É, você mesmo, menina. Menina não, moça. Moça não, mulher. Dá pra se decidir, fico sem saber como te chamar. Posso te chamar de “você” mesmo? Quero dizer um negócio. Negócio não, uma coisa. Coisa não, uma palavra. Isso. Uma palavra resume o que eu quero dizer: espontânea. Calma, já explico, tô meio confuso. Eu quis dizer que: você é espontânea. Bom, agora foram três. “É” conta como palavra? Deixa pra lá. Eu só precisava te dizer isso. Não te conheço tanto, mas leio essa palavra em você. Espontânea. Foi você que inventou? Combina contigo. Vi que você é daquele tipo de pessoa que não tem medo de mostrar o que tá sentindo-vendo-fazendo-ouvindo. Cada vez você é de um jeito, mas sempre é você toda vez. E eu gosto disso. Por isso, menina-moça-mulher, você vai ter que se decidir. Pois agora eu tô confuso por inteiro e preciso saber qual de você eu vou chamar pra sair primeiro.

Placar

se é pra ser
só mais um
melhor ficar
no zero a zero.

Amigos

me alimento
de amizades
quero você
como amiga.

Amém

prefiro “amem”
sem acento
nem dez por cento.

Click

Enquadrou e disparou, o fotógrafo policial.

Mar-ina

é onda
que bate
no porto
que molha
o trem
e dá brilho.
É Mar-ina
Cais, Trilho.

[á Marina Castilho]

Sub-traida

Num canto discreto do Metrô, adicionou outra amante à sua vida.

Destemida

Ela não teve medo de comer o pacote grande de batata frita, nem de guardar a embalagem na bolsa. Não teve medo de sujar o livro com os dedos engordurados, nem de copiar minha posição de leitura. Não teve medo de encarar quem se atrevia a olhar suas medidas, nem de arrumar a franja enquanto o trem sacudia. E fez isso sem parecer esnobe. Dava pra ver que tudo aquilo era natural: a fome, os seios, o charme e a coragem de existir.

Bzz

O tapa certeiro esmagou outro sonho contra o rosto.

Abraçaço

Há tempos não havia tanto movimento na Rua das Olivas. Na altura do número 102, lá pelo 5º andar, o vento balançava sem receios o vestido de Pâmela, que aparentava estar mais decidida do que realmente estava. O parapeito parecia ter sido feito na medida exata de seus pezinhos trêmulos e sua mão esquerda ainda era forte o bastante para segurar no batente da janela, garantindo a volta para dentro do quarto caso mudasse de ideia.

Lá de cima Pâmela conseguia ver claramente a coleção de curiosos na frente de seu prédio — garotos apontando, correndo e chamando mais garotos; senhoras com a mão na boca ou no peito; gente cobrindo e descobrindo os olhos. Não eram muitos, porém mais do que Pâmela gostaria que estivessem ali. Avistou também, pouquíssimo tempo depois, um carro de polícia parar no meio da rua e dois policiais se aproximarem. E, por fim, viu Mauro, com uma caixa nas mãos.

As lágrimas que lhe embaçavam os olhos não a impediram de reconhecer seus pertences na caixa. Sua boca seca sentiu o gosto da ironia quando olhou o relógio e notou a pontualidade de Mauro. 8 da manhã, em ponto. “Para me pegar em casa, ele nunca foi tão pontual”, pensou, ainda ouvindo vozes misturadas vindas da rua. O bicho de pelúcia, o porta-retratos, a coleção de CDs do Caetano e outras quinquilharias; tudo estava jogado de qualquer jeito na caixa.

Assim que Mauro dobrou a esquina e percebeu aquela gente olhando para cima, logo levantou o olhar também e reconheceu em um segundo o vestido, a janela e o perigo da situação. Sentiu uma carga elétrica passar pela espinha quando percebeu que os dedos de Pâmela já escapuliam para fora do parapeito. Sabia que aquilo tudo era mais uma atitude inconsequente, causada pelo término entre os dois — que havia ocorrido na noite anterior.

Mauro mediu mentalmente a larga distância entre ela e o chão, e só teve tempo de largar a caixa pesada no chão e estender as mãos pedindo para Pâmela não se jogar. Pâmela, por sua vez, motivada pela imagem do seu amado de braços abertos, seguiu em frente.

Mauro deu um passo para trás.

Ponte

Ele, ela, o bebê, dois ratos e alguns pombos. Todos com fome.

Apenas

solidão
é quando
só o pó lhe dão.

M

Na sombra, o M é sobra.

Fome do cão

queria
roubar frango
da padaria.
não dá mais,
duvido, coitado.
agora o vidro
também é temperado.

Medo

temo
mas teimo
pois te amo.

Indigente

Raimundo Moribundo. Falido.
Pobre até na rima do apelido.

Amor expresso

– É amor, certeza.
– Como você sabe?
– Tô com uma vontade danada de chamar ela pra tomar um café.
– E daí?
– Daí que eu odeio café.

Afrodisíaco

Na hora H, engasgou com amendoim. Ambos brocharam.

Compartilhado

Para frequentar a escola, os três irmãos usavam a mesma roupa, a mesma mochila e o mesmo caderno. Coincidência, ou não, o sonho deles também era o mesmo.

Altar

– Na alegria e na tristeza…
– Alegria?

“Fé” é a maior palavra que eu conheço.

Sentido

sabe o que eu senti
quanto te vi
do outro lado do salão?
auatro dos meus sentidos pararam,
se uniram
e reivindicaram
o privilégio da minha visão.

Ilusão

sem nexo,
esquisito,
nunca vi nada parecido.
meu reflexo,
bonito,
no espelho distorcido.

Rei e Rainha

– Querido, me empresta o cartão de créd…
– Cheque!

Utilidades

– Quantas funções! Esse juicer é bom mesmo?
– Se é. Faz até suco.

Programação

na próxima encarnação
eu voto
pra que todo coração
tenha controle remoto.

Fazenda

Nesse dia o Sol deixou o galo dormir mais cinco minutinhos.

Educação

Aos 98 anos, aprendeu a respeitar os mais velhos.

Indeciso

Mudo de ideia toda hora.
Ou a cada minuto.
Segundo.
Não, é toda hora mesmo.

 

Como vai?

– Dormiu comigo?
Esqueceu o cumprimento.
“Quem dera”, surgiu no pensamento.

Conjunto

Precisava de sapatos que combinassem com seus brincos e cartões de credito que combinassem com suas vontades.

Com verso

sinto falta de conversa.
daquelas que só o curto
gole de café interrompe.
que não carece de rima,
apenas dum bom clima.
daquelas onde um cor-
ta o outro sem perceber.
da conversa conhecida
onde um finge que o outro
não passa de um estanho.
daquelas em que nem todas as linhas precisam ter o mesmo tamanho.

2 Dorms.

Na foto parecia maior.
Não passava de um apartamento abreviado.

Distraídos

Ângelo se distraiu e só desapertou o botão do filtro depois que a água gelada transbordou a caneca, derramou sobre seu sapado e chegou, quase que instantaneamente, à sua meia fina. Sacudir o pé e dizer alguns palavrões aleatórios seria sua reação comum se naquele momento a sorte não lhe estivesse presenteando com uma das visões mais belas que seus olhos cansados já haviam registrado.

A porta da sala da Sofia estava entreaberta, assim como suas pernas arredondadas e pouco bronzeadas sob o vestido tomara que caia. Um vestido suave, quase pertencente à categoria “curto”, estampado com flores vermelhas que combinavam muito com o cabelo e um pouco menos com os lábios. Um vestido com caimento côncavo, que formava uma ponte de tecido florido entre as coxas – quase uma rede de balanço – e não mostrava nada além de algumas marcas avermelhadas deixadas pela cadeira.

Enquanto isso Sofia digitava, também distraída. As mexidas consecutivas no mouse indicavam o trabalho em alguma planilha, mas esse era o detalhe que menos interessava Ângelo. Para ele, essa oportunidade repentina de voyeurismo não passava de uma compensação muito bem escolhida pelo destino por todas as horas que passara olhando apenas para as pilhas de papéis, e-mails e baias daquele escritório.

Ângelo levou a caneca cheia até a boca antes de procurar algum guardanapo para secar o chão. Nunca havia bebido nada tão propositalmente devagar como aquela água fria, que o obrigava a proteger os dentes sensíveis. Água que ganhou sabor durante os poucos segundos que Sofia demorou para perceber o olhar de Ângelo e como ele tosse alto quando engasga.

Provador

primeira calça. calçou.
pelas pernas passou,
mas apertou na bunda.
passou pra segunda.

Falência

Primeiros caíram as ações, depois o corpo inerte do ex-milionário.

Origem

Tatuou “made in brazil” no cóccix.
Foi deserdada por seus fabricantes.

Milena e Chico

Nunca havia ganhado uma crônica. E a primeira, via de regra, foi bem especial. Não por ser a primeira, mas por ter vindo de quem veio: Vinícius Mendes, amigo desde os duros tempos de estagiário; hoje, também, um irmão literário. O texto-presente mistura realidade e ficção.

Leia: Milena e Chico.

Obrigado mais uma vez, Don Vinni.

Pessimismo

“Que azar! Só faltava chover agora!”.
Pensou, vendo sua casa em chamas.

Casual

Conheceram-se à noite.
Apresentaram-se pela manhã.

Amnésia

Ela me deixou! Ela me deixou?
Ah! Oi, amor. Você demorou.

Natural

– Meio caído esse lugar, né?
– Praia de nudismo é assim mesmo.

Folga

Ser folgado não é justo.

Montanha

se arrume
rumo
ao cume.

PILHAS NOVAS

Fechou os olhos e voltou a sentir boas vibrações.

Breve

abrev.
p/ caber
em vc.

Encara-qual-lado

nesses comerciais de TV
sobre chapinha de cabelo
em loja de departamento,
sempre acho que a modelo
fica mais bonita
antes do alisamento.

Resíduo

só me arrependo
quando não digo,
com todo o resto
convivo.

Lá e cá

sol, chuva
altos, baixos
sorriso e pranto:
é a vida intercalando 
dias felizes
com outros nem tanto.

Digestão

intestino
instiga
a intriga:
deu fome,
deu briga.

Literal

como prova
gramatical
do meu afeto
não desenho,
soletro –
pra não ter
problemas:
T-E A-M-O
com todas
as letras,
sílabas
e fonemas.

De olho

Menos olheiras, mais olhares.

Tic-tac

o tempo passou
do meu lado
e nem percebi.

Há tempos

Há um mês Pâmela não fazia sexo.
E há oito não faz amor.

Pensamento

eu doido pra saber
o que se passa
nessa sua cabecinha
ao mesmo tempo
em que me lembro
que você
não sai da minha.

Fui dormir mais cedo

Eu costumava ir mais cedo para a cama, mas confesso que não sei dizer como peguei esse hábito. Só lembro que numa noite tediosa resolvi ir para os lençóis antes do considerado normal – pelo menos para a minha idade – e não parei mais. E lembro que não o fazia para cumprir as oito horas de sono que os especialistas tanto recomendavam. Sinceramente falando, nunca fui tão responsável assim comigo mesma. Como a maioria das pessoas que conheci, eu só me preocupava com a minha saúde quando ela quase já não existia mais e a qualidade do meu sono não era algo com que eu me importasse muito. Aliás, a única exceção da minha rotina desorganizada passou a ser essa: ir deitar todos os dias às 20h15, para que o dia durasse menos. 24 horas eram muita coisa pra mim.

Essa passou a ser a hora ideal para eliminar meus erros, corrigir meu dia e meu passado próximo. Deitada e sem mover sequer um músculo, eu parava o tempo e concertava ali mesmo tudo que o havia me desagradado. Não era sonho, era minha consciência sussurrando o que eu devia ter feito com uma voz tão baixa que nem mesmo o travesseiro mais próximo conseguia ouvir. Algumas noites me relaxavam a ponto d’eu ir dormir sorrindo, mesmo que por poucos segundos. Era bom. Passei fazer e dizer sempre a coisa certa em todas as situações imagináveis. Se na vida real eu cometia algum erro, às 20h16 eu já estava novamente no mesmo cenário, mas dessa vez com a resposta certa na ponta da língua. Tudo sempre dava certo. Isso também porque eu decidia o que era certo. Reescrevia meus dias várias vezes, sendo ao mesmo tempo a diretora e a protagonista de todas as cenas. Era a melhor parte do meu dia, para ser sincera novamente. Por isso repeti esse ritual por tanto tempo. Quando nem os antidepressivos faziam efeito, deitar àquela hora funcionava. Ou funcionou, até a hora que as correções tomaram todo meu tempo, inclusive do dia. Comecei a acordar cada vez mais tarde e lembro bem como isso aconteceu. Comecei a errar mais e mais feio para poder aumentar o sabor das correções à noite. Perdi a noção do erro. Errei fora de medida. Medi errado. Repetia-me com as palavras. Palavreava à toa. Até a noite em que percebi que melhor do que dormir para ajustar meus erros, era não acordar mais. Foi quando tomei a decisão. 24 anos eram muita coisa pra mim.

Luau

O violão é a verdadeira atração. E tentar competir é besteira. Pois nenhum outro objeto no mundo reúne, em menos de um segundo, tanta gente em volta da fogueira.

Marcas

Tinha o corpo todo marcado graças ao marido tatuador e violento.

Namouro

Amor cobra caro, mas é o maior barato. É coisa que todo mundo deve, nem que seja breve, a prazo ou a primeira vista. Amor é conquista. Amigo vira amado, ficante vira namorado e inquilino vira residente. Amor é indigente. É realizar o sonho da carne própria e receber um carnê, que a gente quita aos poucos, sem direito a troco e com um adicional de clichê. Amor é o que você vê. É o saldo líquido que escorre pelos dedos no fim do mês. É o produto interno bruto que aumenta absoluto quando a gente se importa de vez. E fica exposto. Amor é imposto. É o produto de roubo do carinho que a gente insiste em colocar no carrinho, que não tem prazo de validade, nem cobertura dos seguros. E não é publicidade, eu juros. Entre, deite e para sempre seja feliz! É o que o cartaz diz, mas é só até amanhã. Amor é promoção. E é o investimento certo, sem limite no cartão, que deixa a gente pelado e sem cheque calção. Amor é aquilo que você encontra na fila do banco quando vai pagar a conta e já saca o que é. E que rende depois de certo ponto quando escolhemos bem a companhia, pois o amor não dá desconto para quem é ruim de economia. Não adianta carteira cheia e beijo vazio. Não adianta investir na bolsa com notas faltas de elogio. Para administrar o amor não tem gerente, tem que ser a gente mesmo. E foi com o esmo das parcelas desse talão que eu chamo de coração, que eu descobri o segredo mais sagrado do mercado, e parei de pedir amor fiado. Aprendi que a paixão cobra caro por uma única razão: para que a gente jamais arrependa de nenhuma declaração: nem de amor, nem de renda.

Esmola

Lançou moeda de prata ao pedinte, que retribuiu com sorriso de ouro.

Mimo

Dê uma flor para uma mulher.
Ela ficará muito agradecida.
Flores adoram mulheres.

Solidão

Queria desabafar.
Marcou um encontro com as lágrimas, mas nem elas apareceram.

Pe-pedido

O gago encontrou uma lâmpada mágica.
O gênio lhe concedeu três desejos.
O gago queria uma pérola.
Ganhou três pés.

Fio

Ela disse que sempre usava fio dental.
Só aí percebi o quanto seus dentes eram limpos e minha mente era suja.

Elogio

– Gostei da cor do seu batom.
– Não estou com batom.
– Eu sei.

Tímido

Morria de vergonha quando descia do palco.

Hereditário

Herdou do pai o jeito autoritário.
“Eu te proíbo de morrer!”, gritou ao filho doente.
Pingou no travesseiro uma lágrima desobediente.

Bom dia

A via é láctea, a Lua é feita de queijo e no céu tem pão.
O universo é um café da manhã.

Até logo

Foi comprar cigarros.
Voltou por amor.
Era o isqueiro de estimação.

Derretido

Assim que entrou pela porta, deixou o casaco carregado de neve no cabideiro. Livrou-se do jaleco, arremessou a maleta profissional em cima do sofá – confiando na própria pontaria e na maciez do móvel cinza – e foi direto até a maleta musical: um xodó chamado Keepsake Deluxe – talvez o toca-discos mais charmoso da Crosley. Logo, em um contraste planejado com o gesto anterior, Gilmar retirou delicadamente a agulha do descanso e pousou-a na primeira faixa do primeiro disco do Bowie – o primeiro também da sua lista de favoritos.

“Isso de atender clientes depois do horário passou do limite”, disse baixinho pra si mesmo, tentando não acordar a esposa enquanto abria a meia garrafa de Ballantine’s e banhava as duas pedras de gelo do copo.

Aos poucos, tentou também relaxar ao som quase inaudível das palminhas ritmadas de “Uncle Arthur”. Lembrou-se de como era bom ter uma poltrona reclinável e logo usufruiu desse recurso de conforto para aliviar os pés e esvaziar a mente das reclamações de dor e recomendações repetidas que deu durante o dia. Com os olhos fechados, Gilmar não arriscou interromper a música com nenhum gole e, até que ela terminasse e o ruído de mudança de faixa soasse, preferiu apenas girar suavemente o liquido destilado no sentido horário. Quando a última palma foi reproduzida, Gilmar levou o copo à boca na ânsia de beber tudo de uma só vez.

O uísque desceu com deveria, massageando o céu da boca. O único cálculo errado do gole foi o ângulo de altura do copo, que fez uma das pedras de gelo entrar e se alojar em sua garganta. E ali ela ficou.

Às 2h43, o momento de relaxar quase se tornou um pesadelo alcoólico-gelado. Foi nesse minuto que sua vida se dividiu entre a que se passou até aquele gole desastrado e a que viria – incerta – se aquele cubo saísse do pescoço. Não seria o tipo de morte que um clínico geral se orgulharia. Principalmente depois de anos lidando com a quase morte alheia e com todas as técnicas de primeiros socorros decoradas a exaustão. “Então é assim, engasgado, que vou morrer”, pensou Gilmar, exagerando a situação, sem saber se achava graça até o gelo derreter ou se preocupava com a possibilidade disso não acontecer tão rápido.

Ao olhar o retrato de família na estante, Gilmar viu sua face deformada enquanto as outras permaneciam intactas. E, ainda envolvido em sua pequena dramatização, começou a pensar que aquele registro de um passeio dominical no Battersea Park poderia ser sua última visão. O que se reforçou quando a falta de ar começou a incomodar e a primeira dose de adrenalina foi introduzida em sua corrente sanguínea. Atônito, Gilmar sentiu que iria de fato ver sua vida diluir diante de seus olhos enquanto Bowie recitava “and when she smiles, the ice forgets to melt away” em “Sell Me A Coat”.

E foi quando as mãos de inconsciência já acariciavam seu rosto que um barulho na porta reativou sua atenção e o movimento dos flocos de neve despencando de seu casaco o fizeram esquecer por um momento o ar que faltava em seu corpo. Continuava a ver tudo em câmera lenta, mas agora a cena mais se parecia com aqueles enfeites de Natal que a gente chacoalha e deixa parado para ver nevar dentro dele.

O primeiro pé entrou pela porta e logo se livrou da bota. O outro, quando entrou, repetiu o gesto. O par de botas foi retirado do chão por uma mão delicada, já sem luva, e os dois pés com meias coloridas avançaram e se voltaram na direção de Gilmar.

– Pai?!

E como se alguém tivesse dado um soco em seu diafragma, Gilmar sentiu o gelo se mexer e descer com dificuldade, liberando seus brônquios para o oxigênio.

–Ahhhh – e foi recuperando o ar mais lentamente do que gostaria, disfarçando.
– Pensei que o senhor já estivesse dormindo.
– Não, vim relaxar um pouco – e exibiu com a mão ainda trêmula o copo vazio.
– O senhor nunca bebe. Aconteceu algo?
– Nada importante, só quis relaxar hoje.
– Cadê a mamãe? – disse Renata, olhando para as escadas.
– Dormindo.
– Vou acordar ela pra ver o senhor, você tá pálido.
– Não é nada, filha, já falei.
– Bom mesmo assim vou, só por garantia – e pôs o pé no primeiro degrau.
– Bom, eu acho desnecessário, mas já que você insiste, aproveita e explica para ela onde a senhorita estava até essa hora.

Renata para, engole seco e se volta novamente para o pai, espremendo os olhos como quem quer enxergar melhor.

– Nossa, pai, deixa-me ver: o senhor está bem sim. Boa noite.
– Volta aqui, mocinha. Você tem razão, melhor chamar sua mãe.
– Que é isso. Você tá bem. Deixa ela dormir. Vou também.
– Ok, mas só depois de me dizer o que é essa pintura no seu rosto. Você foi naquela fest…
– Não, imagina! – Renata o interrompe. – Eu fui na…

De repente outro ruído de mudança de faixa soa e “Love You Till Tuesday” começa.

– (…) Bowie! Isso, na exposição do Bowie. Você tinha que ver. Aí lá eles me pintaram.
–Ah sim, sei, aquela que saiu de cartaz mês passado? – diz Gilmar, entrando na brincadeira.

Renata fica em silêncio por alguns segundos enquanto ouve o trecho “don’t be afraid of the man in the moon, because it’s only me”. Fica séria por um momento e olha fixamente para o pai, assistindo toda a sua vida com ele passar diante dos seus olhos até aquele momento onde o vê, finalmente, como amigo. Um amigo recuperando a cor original do rosto e que anos atrás, nessa mesma situação, apenas a olharia com olhar de repreensão. “Ele mudou” veio ao pensamento junto com um pouco de emoção que ela não saberia explicar de onde surgiu – talvez fossem os drinks que tomara horas antes.

– Você não muda, né, mocinha?! – diz Gilmar, interrompendo os pensamentos da filha.
– Nem você, né, Doutor Gilmar.
– Não mesmo, enfermeira Renata.
– Enfermeira não… estilista. Já falamos sobre isso.
– Ok, ok, desculpa. Só me diz uma coisa: estilistas bebem?
– É claro, né, pai.
– Então pega um copo e termina esse disco com seu velho.
– Será um prazer – disse sorrindo, enquanto ia até a estante pegar um copo.

Gilmar nessa hora volta calmamente o encosto da poltrona ao lugar original e a gira na direção da filha, que agora está com a pinça a caminho do balde de gelo.

 – Renata, larga isso agora! – Gilmar berra, acordando a esposa no quarto de cima.

Duplamente qualificado

Todo assassinato é latrocínio, já que o algoz também rouba o direito alheio de viver.

Páginas de praxe

Prefiro comprar na banca porque é prático. Você dá o dinheiro, pega a revista e pronto. Não assino revista. Leio revista. Não quero saber do “Contrato do Assinante”. Quero saber.

Doce escolha

A linda donzela trocou a faixa amarela bordada com o nome dela na entrada da favela por outro agrado de mesma cor: o Camaro, que custa um pouco mais caro.

Colchão

– Vê se não me amola que hoje eu tô espumando de raiva!

Achatado

Sua presença era anunciada pelo mau cheiro. Cutucava a todos para chamar a atenção e, geralmente, dizia um monte de asneiras. Só viu que era chato em todos os sentidos quando sentiu o gosto do sangue.

Marcada

Pouco cuidadosa, cortou o pé numa rosa.
Cobriu a cicatriz tatuando uma flor de lis.

Preferia ficar de joelhos.
Tinha 2,10 e medo de altura.
Acreditava piamente no seu tratamento.

Cria

No vaso sanitário ele tinha ótimas ideias.
Na frente ao computador, só saia merda.

Despedida

O cortejo segue atrás da coroa de flores.
Lentamente, todos se lamentavam.

Interesse

Nós é que temos o que elas querem.
Ah, e quanto mais comprido, melhor.
Mulher nenhuma dispensa um olhar.

Fusão

Tão quente que tem ponto derretendo e virando vírgula.

Playboy

De todas as marcas importadas a maior era a da sua última briga com um gringo.

Esforço

Faltavam dentes, mas sobrava carisma.

Divórcio

de casa,
saiu cedo.
da cara,
sangue.

Solteiro tem as costas sujas

Não me atrevo a reclamar do corpo humano. Ele é quase perfeito. Nascemos com uma boa flexibilidade e, tirando quem tem fetiche por lamber o próprio cotovelo, alcançamos tudo o que precisamos. Temos 20 dedos – indispensáveis –, 206 ossos – uma estrutura de dar inveja a muito invertebrado –, e diversas articulações que, fora dos campos de futebol, tentem a funcionar muito bem. Mas, mesmo com todos esses recursos, ainda temos um lugar que nenhum desses dedos, ossos ou articulações alcança: o Triangulo das Bermudas das costas.

Há um trecho de pele nas costas que nenhum mortal consegue limpar sozinho. Um trejo que é majestade. Rei que é rei se banha nas águas mornas do chuveiro sem engasgar com espuma de sabonete. É trecho soberano. Assediado por massagistas, afagado pela mão amiga, mas que também é alvo de facadas e atentados.

É aí que começam as desvantagens. Por cima, chegamos até certo ponto. Por baixo, até outro. Pelos lados é bom nem tentar. O meio fica neutro. Longe. Destacado. Tanto que ele chega a se sentir superior aos outros trechos de pele. Intocado.

Nenhum sabonete com coragem suficiente para se aventurar por lá voltou pra contar historia. Nenhuma bucha teve coragem de se aproximar. Algumas bolhas de sabão que passaram por perto estouraram antes mesmo de se vangloriarem. O único capaz de adentrar essa área é o cônjuge.

Cônjuge só serve se souber lavar as costas alheias. Faça o teste. Chame o seu par para um banho duplo. Examine as habilidades dele ou dela em chegar ao ponto menos excitante do seu corpo também. Quem lava as costas ama. Espremer espinha é agrado. Ou fissura. O que importa mesmo, para quem tem um amor, é lavá-lo e enxugá-lo até que a morte os separe.

Crenças

Quando vivo, acreditava em espíritos.
Morreu por acreditar demais nas pessoas.

Excêntrico

Terminou o livro e voltou ao começo.
Agora vai ler as páginas ímpares.

Pátria

noite vira dia.
ou dia vira noite.
ou viro do Ipiranga
as margens plácidas
da minha cama.
dos cochilos deste quarto
és mãe gentil,
cadê meu sono, Brasil?

Boteco

Sou dessa gente que festeja,
Que ouve de samba a música sertaneja,
Que está sempre pronta para a próxima peleja.
Gente bonita por natureza,
Que dispensa a tristeza pra casar com a beleza,
Na riqueza ou na pobreza.
Gente que se senta à mesa
E cumprimenta o cara da bandeja.
Meu amigo, te digo com certeza:
Das histórias desse botequim,
Me lembro que a mais ruim,
Foi quando um amendoim,
Caiu dentro da minha cerveja.

Batman

Sua missão é matar a Mulher-Gato. Quantas vezes for preciso.

DE ARTE A Z

Artistas antiquados. Apresentavam artes autorais.
Bonitas, brilhantes. Bambeavam belas. Bastava.
Críticos criteriosos. Conhecidos. Cultos. Convencidos.
Donos de dedicação, disciplina, diversidade.
Elite eleita entre especialistas.
Fizeram, formaram, formataram formas, figuras e firulas.
Gozavam galerias gigantes, guardando gostos. Gente geniosa.
Homens honestos.
Inteligentes, íntegros, independentes.
Jogavam jogos. Juravam jamais julgar.
Literatura? Lógico! Liam livros largos.
Migraram mirando mudar movimentos.
Não nasceram nessa nação.
Ostentavam orgulho.
Patriotas.
Quando queriam quadros…
Rabiscavam riachos, ruas, roupas, rapazes.
Saudosistas. Sentiam sinceras saudades.
Talentosos. Tentavam terminar tais telas. Tinta.
Último uísque.
Vestimentas vistosas.
Xales.
Zênia e Zuriel.

Insônia

Certa noite, tive aquela típica dificuldade de dormir de quem acordou tarde no dia anterior. Enjoado do computador e sem a mínima vontade de assistir aos programas da madrugada na TV, resolvi escrever.

Uma Bic preta, uma lanterna e um caderno surrado me distraíram e divertiram por várias horas. Que bom para um futuro redator. Sem temas ou propósitos, apenas decupei conversas comigo mesmo, criei breves histórias, cantarolei paródias e escrevi cartas que nunca irão chegar aos seus destinatários.

De um tedioso sábado à noite para um simplório domingo de manhã, pensamentos transbordavam e questionamentos se formavam, rápida e constantemente. Estes, por sua vez, sem respostas até o momento. Como se numa uma grande fábrica os produtos fossem fabricados, porem não fossem embalados.

De qualquer forma foi uma experiência interessante. E estimulante. Pensei no impensado até então, inventei piadas e tive ideias que talvez algumas horas dormindo nunca me dariam. Fico feliz de reafirmar para mim mesmo que sou um ser pensante e com alguma criatividade – essencial para minha futura profissão. E até contaria uma pouco mais das interrogações que afloraram da minha cabeça, mas é que já está muito e eu preciso dormir. Boa noite.

De quando deixei meu cabelo crescer

Não parece, mas já fazem três anos que minha orelha fica sempre aquecida no inverno, que quase morro de agonia no verão e que não tenho mais contato visual com o meu couro cabeludo. A decisão pelo novo estilo foi, digamos, natural. Sem pensar. Ou quase isso. Recusei a maquininha barulhenta fazendo meu “pezinho” e aceitei uma nova possibilidade visual (quem é feio como eu não tem muito a perder).

Sabe aquela decisão que você só toma quando já está sentado na cadeira giratória olhando para a pessoa que há anos está ali no reflexo do espelho com a tesoura na mão? Pois é, foi isso. E assim, cá estou eu chamando a atenção dos piolhos empreiteiros.

Eu mal sabia das consequências. O novo estilo levou embora o frio na nuca, mas, em compensação, trouxe uma série de piadas que no começo me incomodavam – talvez pela insegurança da mudança –, mas agora me divertem muito.

Certa vez, prometi que para cada comentário sobre cortar meus emaranhados de fios na cabeça, iria adiar em uma semana a ida ao salão da Dona Tereza, que aliás, é a grande responsável pela minha “nova” cabeleira. Desisti da ideia. Pois, logo eu não poderia mais passar em porta nenhuma. Prefiro continuar sem poder usar boné. E outra: depois de ler todas as revistas na sala de espera, eu tinha que arrumar um motivo para ir menos ao salão.

A viagem de elevador

São Paulo não é apenas a terra da garoa, mas também a terra dos edifícios. Quem não mora provavelmente trabalha em um e, assim como eu, convive diariamente com o mecanismo de constrangimento coletivo chamado: elevador. E digo mecanismo porque ele certamente foi projetado não só para o transporte vertical nos prédios, mas também para o mal-estar horizontal da sociedade.

Começa no saguão. Enquanto estamos lá, sozinhos, o mundo é lindo: verificamos em qual andar a Caixa do Mau está, apertamos o botão e logo planejamos tudo o que vamos fazer: olhar no espelho, espremer aquela maldita espinha, tirar a cueca/calcinha  do rego, entre outras intimidades. Até ai tudo bem, tudo normal. Mas não demora muito e alguém chega. Sempre chega. Alguém que você mal conhece e já odeia. Alguém que não entende que aquele era seu o momento, o seu ritual, os seus planos. Alguém que acaba de estragar tudo. Parece até que estava adivinhando. E o pior não é isso. O pior é que é recíproco: ao te ver certamente esse alguém também desenvolveu um ódio instantâneo. Ou você acha que é o único que gosta de privacidade?

Essa é apenas a primeira etapa do desconforto. O resto acontece na própria Caixa Infernal. Depois de entrar nela não há como fazer nada produtivo. Arrumar o cabelo, cutucar o nariz e peidar estão fora de cogitação. Foto para o Instagram? Esquece. Quando a porta abre todos leem a placa imaginária: “Fale sobre o tempo ou não fale. PS: permitidas piadas sem graça”.

A situação é tensa. Você entra com desconhecidos numa cabine de aço suspensa por cabos e não tem a mínima ideia do que dizer ou fazer. Seu único objetivo é não ser mal-educado. Aliás, se a gente pensar bem, o elevador é uma boa ferramenta de educação. Os alunos de meteorologia deveriam fazer especialização em elevadores, pois é só colocar o primeiro pé nele que qualquer um se transforma em um especialista climático. Do nada surge assunto. Em dias de chuva ou frio então, a situação é perfeita.

Em algumas das Caixas Neutralizadoras de Assunto também existem pequenos monitores que, sinceramente, não acho que sejam um formato de mídia e sim uma forma de tentar ameninar o desconforto dos navegantes. Neles, passam manchetes de notícias relevantes como: “Homem torce tornozelo na Rússia”, “Família holandesa constrói carro com palitos de fósforo” ou “Bebê na Hungria nasce com dois pés esquerdos”. O curioso é que por mais estranhas que as notícias sejam, elas sempre prendem a atenção de todos no recinto. É melhor olhar para aquele monitor com cara de conteúdo do que para as outras pessoas, pois além fingir que está ocupado, não há chance de fazer besteira.

Os minutos parecem meses; os segundos, dias. Todos acompanham ansiosos o passar dos andares, como se estivessem acompanhando o sorteio da loteria com seus bilhetes na mão. Relógios, botões e gravatas são conferidos com frequência. E o telefone, site e endereço da empresa que faz a manutenção do Caixote Suspenso são lidos e decorados até que ele chegue ao andar de cada viajante.

É sempre um alívio ver os outros saindo. A cada pessoa que deixa a Caixa do Mau, parece que sobra mais oxigênio, mais espaço, mais vida. Você se sente um vencedor por ficar ali mais tempo. Até que em um belo momento o elevador chega ao seu destino. As portas se abrem novamente e você se orgulha por vencer mais esse desafio cotidiano. Ufa! Tá ai um tipo de viagem que deixa qualquer um sem palavras.

Ó abre aspas

“ó abre aspas
que eu quero citar”
“ó abre aspas
que eu quero citar”

eu sou Clarice
não posso negar
eu sou Clarice
não posso negar

“ó abre aspas
que eu quero citar”
“ó abre aspas
que eu quero citar”

eu sou Verissimo
não posso negar
eu sou Verissimo
não posso negar

“ó abre aspas
que eu quero citar”
“ó abre aspas
que eu quero citar”

Bloco do Burro
é que vai passar
Bloco do Burro
é que vai passar.

[em parceria com o Minchoni no último Bloco do Burro]

Andarilho

Sem comer há dias, dividiu um pão com o melhor amigo.
Morreu por ter a bondade maior que a fome.

Esquartejador de aluguel

Divido em 12 vezes. O preço também.

Acidente

Alto teor de álcool no sangue.
Baixo teor de responsabilidade.
Bateu. Matou três. Sobreviveu.

Cifras

Lucrava compondo.

Encorpado

Quase um mês de academia.
Os resultados? Objetivos mais definidos.

Tudo right

É mais simple usar uma language só.

Linkada

Te favoritei pra nunca mais te ver.

Fatia

Textos são fatias de vida.
Escritores, a máquina de frios.

Tinto muito

A taça trincada sangrou o lábio.
Os tons vermelhos se uniram, assim como as dores.

Descoberta

Era impossível para Aline dizer o que a dominava naquele momento: o álcool ou a vontade repentina de desaparecer. De uma hora para outra a mão que segurava o copo americano começou a tremer enquanto os dedos da outra se contorciam de ansiedade no bolso da calça. Não queria mais estar ali. Logo Carlos, Jorge, Fabiana e Lucas se tornaram borrões ao invés de colegas de trabalho; e a rua em frente ao bar se tornou o caminho mais atrativo que já havia visto. Foi assim que, num impulso, Aline pousou o copo no balcão, entrando sem querer na frente do Lucas e interrompendo a conversa sobre a nova recepcionista do escritório da qual ninguém lembrava o nome. Todos pararam, desmancharam aos poucos os sorrisos do último trocadilho e olharam surpresos para ela, que tirou uma nota de vinte da bolsa, enfiou no quadradinho de vidro do caixa e foi embora, sem dizer uma palavra sequer.

Aline andou até sua casa dando os passos mais firmes que as calçadas da Avenida Paulista aguentariam em uma quinta-feira calorenta. Pela primeira vez fizera o percurso trabalho-casa a pé. Precisava daquele tempo. A ideia de jogar tudo para o alto já havia pairado pela sua cabeça inúmeras vezes, principalmente nas conversas pós-expediente em frente ao Copo Sujo, mas nunca com tanta força. Não ao ponto de fazê-la arrumar suas malas assim, antes mesmo da sexta-feira começar. Usou suas últimas forças do dia nessa tarefa. Depois do banho morno e demorado, seu suor levemente etílico deu lugar a um cheiro carinhoso de erva doce. Aline se jogou na cama e adormeceu, só de toalha.

Na manhã seguinte, acordou descoberta. E surpresa com a ausência da ressaca. Vestiu-se. Abriu geladeira, armário e não viu nada interessante. Carla, sua roommate, havia viajado na semana anterior e, desde então, nenhum mantimento havia entrado no apartamento. Aline foi até a fruteira, pegou uma maçã argentina e se jogou de novo na cama. O alarme do celular tocava avisando que aquela seria a hora de sair de casa para trabalhar caso ela ainda pretendesse fazer isso.

Aline tinha o olhar perdido enquanto comia. Como se o seu corpo estivesse economizando energia dos olhos para abastecer os pensamentos. Até que percebeu o notebook em cima da raque, perto da TV, e lembrou que tinha assuntos a resolver. O que nunca havia passado pela sua cabeça era que sua vida poderia se resolver temporariamente apenas com uma carta, dois telefonemas, uma passagem para Florianópolis e um SMS. Ou dois.

Deixou um envelope para Carla com sua parte do aluguel daquele e do próximo mês, junto com um bilhete de despedida e desculpas. Ligou para sua supervisora pedindo demissão sem dar muitos esclarecimentos e, logo em seguida, discou o número do anúncio que ofertava uma charmosa cabana na Praia dos Ingleses. É perfeita, pensou, encantada com as fotos no site de classificados. Reservou por um mês, para alegria do proprietário. Por último ficou a parte difícil: enviar o SMS para Douglas, garoto que apareceu um dia no Copo Sujo e que de certa forma a conquistou com seu jeito brincalhão. Sem saber muito bem o porquê, se sentiu na obrigação de dar explicações, mesmo sabendo que não tinham nada sério. Se importava mais do que gostaria. Aline desligou o celular depois de enviar a mensagem, para evitar que Douglas ligasse em seguida.

Aline: Passarei uns dias longe. Provável que a gente não se veja mais. Fica bem. Bjo!

Quanto à família, Aline preferia que eles ligassem quando sentissem sua falta. Para ela, a coisa desagradável de largar tudo era ter que dar justificativas. Como se não bastasse a sua imensa vontade de mudar de vida. Assim, preferiu dar as explicações mais demoradas em outra hora.

Douglas: Como assim?

Após quase doze horas de viagem, um livro do Manoel de Barros lido de cabo a rabo e uma bunda quadrada, tudo o que Aline queria era tomar outro banho morno e se deitar nua. Ter dormido assim na noite anterior tinha sido prazeroso e ela não via a hora de repetir. Fez um acordo consigo de tentar apreciar mais essas sensações simples que a vida oferece.

Douglas: Tá ai? Queria falar com você antes de você ir…

Aline andou até a área de desembarque da rodoviária Rita Maria dando os passos mais felizes que o chão de Santa Catarina já havia sentido. Não estava nem há dez minutos ali e já se sentia melhor. Entrou no taxi. O moço atlético e de barba rala no volante se chamava Edgar e era o taxista mais jovem com quem Aline já havia andado. Um clima de flerte tentou se espalhar pelo carro lentamente enquanto o taxímetro avançava. Alguma coisa em Edgar fez Aline lembrar de Douglas. Talvez o queixo pontudo ou as sobrancelhas grossas. Pensou no que ele estaria fazendo naquele momento e ficou calada durante toda a viagem, observando o que as margens da SC-404 tinham a oferecer. Após 25 minutos, Edgar finalmente anuncia: chegamos!

Douglas: Tô preocupado, Line. Manda notícias.

A cabana era menos bonita do que nas fotos, mas ainda tinha seu charme. Uma rede azul e um tapete “bem-vindo” recepcionavam quem se aproximasse. Dentro, os lençóis brancos, o fogão vermelho fusca e outros detalhes contrastavam com o marrom-madeira predominante. Aline trancou a porta, deixou as malas no chão e foi conhecer o ambiente. Passou pelos dois cômodos até chegar ao banheiro. Abriu uma das torneiras, viu o chuveiro tossir e expelir água fria que logo foi esquentando. Deixou-o ligado. Voltou até a mochila para pegar a toalha, o sabonete e, enfim, entrou no banho que havia planejado durante toda a viagem, inclusive durante a curta corrida de táxi. Respirou fundo e deixou a água morna massagear seu corpo.

Douglas: Pô, Line. Onde você tá?

Com a toalha ainda presa em volta dos seios, Aline abriu calmamente a mochila, tirou outra maçã argentina que trazia da viagem e começou a comê-la enquanto olhava pela janela, como num filme que havia visto há pouco tempo, mas não lembrava bem o nome. Sentiu o vento brincando de secar seu cabelo por um bom tempo. Depois deixou o que sobrou da maçã na mesa e foi verificar o celular. Viu as quatro mensagens de Douglas. Tentou ignorar num primeiro instante, mas se rendeu. Já sem a toalha, foi até o canto da cabana e fechou os olhos, sentido as ásperas chapas de madeira arranharem levemente suas costas. Olhou-se pela câmera frontal do celular e percebeu que estava descabelada. Puxou uma faixa de cabelo do bolso lateral da mala, que estava próxima. Não estava satisfeita. Ainda dava para notar as olheiras. Sendo assim, sacou agora um pequeno kit de maquiagem que trouxera na bagagem e caprichou nos cílios, com a calma que nunca teve antes para essa tarefa. Dessa vez olhou a própria imagem e sorriu. Sentiu orgulho de si mesmo por estar ali, daquele jeito, naquele lugar, àquela hora. Apreciou detalhes de si mesma e bateu uma foto, que usou para responder Douglas, junto com sua nova palavra preferida.

Aline: Descubra!

Chuva

A chuva enche o saco de uns, a rua de outros. Só não enche os reservatórios pelo visto.

Corrida da Vida

Do sonho gostoso, corre para a vida real. Acorda, vê a hora, reclama em silêncio, afasta o edredom. Da cama, corre para o banheiro. Lava, seca, escova e enxágua. Do vidro embaçado, corre para o guarda-roupa. Cueca limpa, talco, buraco do cinto, último botão da camisa. Do espelho, corre para a cozinha. Suco industrializado, pão integral, metade da torrada, prato na pia. Do guardanapo, corre para a sala. Carteira, mala, smartphone, chave do carro. Da calçada de casa, corre para a avenida principal. Curva, 92.1 FM, ponto morto, farol. E fica parado. Agora correndo apenas o risco de ser assaltado.

Conexão

Tentou pensar, mas estava sem internet.

Nomes e significados

Um costume que eu não entendo: por que os pais se importam tanto com o significado dos nomes quando vão ter um bebê? Existem diversos livros com nomes e nomes, cada um com um ou mais significados. E sabe pra que? Pra nada. Pois é, mas talvez esse seja um dos poucos critérios que temos para escolher um nome: não pode ter o nome daquela vilã da novela que você odeia, nem do jogador famoso do time rival e tem que significar alguma coisa. Na boa, ninguém usa o significado do próprio nome pra nada. O máximo de utilidade que ele tem – e mesmo assim, só depois que a gente cresce – é para puxar assunto, mas isso também depende do nome:

– Oi, qual é o seu nome?
– Oi. É Thynberlecson.
– Que diferente. O que significa?
– Significa: aquele que tem pais sem noção.

Concordância

eu, tu, ele
nós, vós, eles
todos concordamos
que amar
jamais deveria
ser conjugado
no passado.

Formas

– Vocês formam um lindo casal.
– Obrigado. Você forma lindas opiniões.

Valia

– Tudo bens?
– Tudo joia!

[em parceria com Felipe Valério]

Desbenefícios

Todo dia a catraca desconta seis reais de seu bilhete e quatro horas de sua vida.

Precavido

Escrevia sua autobiografia diariamente, deixando ao filho apenas a tarefa de colocar o ponto final quando chegasse a hora.

Estética

Ficou sem rugas, celulite e dinheiro.

Marco

Livro de história nunca precisou de marcador de página.

Corretor

– Ele é o melhor.
– Tá e daí?
– É novidade no mercado.
– Tá e daí?
– Daí que eu consigo um desconto pra você.
– Tá e dái?

Dedicado, Roberto treinava seu poder de persuasão diariamente com o gravador.

Assalto

A vítima desta vez estava com o dedo no gatilho.

Pechincha

Terra a vista. 1500, em dinheiro vivo.

 

Maior vício

Espelho do Vício, poema da Adriana Cecchi.

vício

Relação aberta

Má me quer.
Bê me quer.

Mentira

coincidentemente,
todo mundo mente:
amorosa-mente
displicente-mente
extraordinária-mente.

Posso ficar

No fim do horário de verão, o trem das onze passa duas vezes.

Urbe

a cidade
é ácida de
verdade.

Maior

o que escrevo
é maior que eu
pois tem tudo de mim
e um pouco de quem leu.

Ferro

– Passa aqui pra me dar uns amassos.

Viver

minha vida
um dia desses
mandou uma carta:
disse estar
sentindo muito
a minha falta.

14h45

As pernas afastadas marcavam quinze para as três e o dedo entre elas girava suavemente no sentido anti-horário. Cláudia nem viu o tempo passar.

É mais fogo

esquenta quando ela tenta
ferve quando ela ama
queima quando ela teima
arde quando ela chama

é foda quando ela chega
é fogo quando ela cama
é pouco quando ela deixa
é muito quando ela inflama

é tacho eu acho é queixa
mas facho quando ela mama
é lama quando deseja
sou trama ela melodrama.

[o amigo e poeta Victor Rodrigues deu mais versos ao poema É fogo]

Umazinha

Antecipou-se ao porteiro do puteiro:
– Só quero dar uma… olhadinha.

Luz

[à Luiza Romão]

não me leve a mal
mas na minha opinião
o nome antes de Romão
tem muita vogal.

se o “i” desaparece
e o “a” fosse eliminado
tudo o que sobraria
melhor representaria
a pessoa pra quem
o nome foi dado.

Surgir

Dá vontade de sumir.
Mas aí você aparece.

É fogo

esquenta quando ela tenta
ferve quando ela ama
queima quando ela teima
arde quando ela chama.

Em frente

meu plano
era totalmente
diferente disto
mas agora tanto faz.
desisto, resignado
eu tinha em mente
correr ao seu lado
não somente atrás.

Consumista

a própria camisa
tirou o pó
do novo para-brisa.

Casaco

Durante o dia ele a envolvia com seu calor.
À noite, ela o traia com o cobertor.

Calendário

Odeio dias corridos.
Prefiro os úteis.

Queda

Se desequilibrou e crack! Caiu nas drogas.

Linha Ver-molha

É só chover que a Barra aFunda. E nem com ordem de Marechal Deodoro ou milagre da Santa Cecília a chuva hesita em pingar nos quartos da minha República, guardando água suja no meu AnhangaBaú. Mas Sé em Deus que tudo melhora. E molha. Até o peito do pé do Pedro II. Molha também os confinados do Brás-Bresser-Belém. Molha eu e tu. E se Tá-tu-a-pé, vai se molhar mais do que quem tá de Carrão. Uma Penha. Vi lá a Matilde, pra ela a chuva traz medo. Pra Dona Guilhermina, Esperança. Ó Patriarca amada, por que faz isso? Logo hoje. Assim meu convidado Artur Alvim logo vai querer voltar. E não vai nem poder ver como era a nossa querida Corinthians-Itaquera. Ô, Seu Metrô, por favor, deixo aqui mais uma reclamação minha. Pois é só chover que o trem todo fica vagão. E eu, na trilha de anfitrião, acho isso o fim da linha.

De olho

Menos olheiras, mais olhares.

Emoção forte

As veias do braço ainda nem haviam voltado ao normal quando Sérgio deixou cair a primeira lágrima. Construiu aquela casa inteira sozinho. Seu esforço fez gosto. A segunda gota desceu e se perdeu no suor do rosto.

Hugo

Há tempos não andava de ônibus.
Ficou enjoado, deu sinal e desceu.
Um ponto depois do vômito.

Números

O vizinho do 14 só tem 18, mas já é 171.

Rotina

Sua vida se divide entre os bons momentos e o trabalho.

Mudo

Calado, colocou tudo no caminhão.

Facínio

Atração mais que carnal: ela tem grandes anseios e um carisma que abunda.

Nativos

O canto forte se repete e toma conta da aldeia.
Na oca faz eco.

Em cartaz

O Suicídio
(única apresentação)

Vida Cigana
(local a definir)

Alegria de Pobre
(curta duração)

 

Prospecção

– Na sua agência ou na minha?

Hábitos

Resolveu ir ao mercado de bicicleta.
Voltou com frutas, iogurte e um pouco mais de saúde.

Integração

Corpos colados, balanço ritmado.
Pena que ele teve que descer na Sé.

Desgosto

– E o escondidinho?
– Ainda não encontrei o sabor.

Consolo

A cama vazia. E ela cheia de vontade.

Crúcis

não sou santo
mas sinto
que ter visitado
seu interior
nesse estado atual
foi pecado capital.

Terra-troco

Esse planeta de mentira não vale um real.

Simulacros

pelos buracos
dos barracos,
os simulacros:
caixa vira brinquedo
madeira  se faz de parede
e a gente finge que come
com facas cegas de medo
copos secos de sede
e pratos sujos de fome.

Vai e vintage

o contemporâneo
contém o pó de anos
mas está conservado
pois a vanguarda
e bem guardado.

Além

.Passei do ponto

Vem

Eu te vAMOs.

Bem-vindo

Um blogue simples pra reunir o que já escrevi e vou escrever.

Só isso. Nem tanto. Talvez mais.

Eu, textos e você.